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Internacional/Ásia: Porque corre a Índia para o rearmamento? Nova Deli acelera a modernização militar num contexto de tensão regional

Com um orçamento da Defesa em forte alta, a Índia aposta numa corrida tecnológica e estratégica para responder à pressão do Paquistão e da China

Ao apresentar o orçamento para o exercício fiscal 2026-2027, o governo indiano revelou um plano ambicioso de modernização das suas forças armadas, sinalizando uma clara mudança de escala na política de defesa do país. A verba destinada à aquisição de armamento aumentou 18%, atingindo 23,9 mil milhões de dólares, enquanto o orçamento global da Defesa — que inclui equipamentos, salários e pensões — alcança agora 85 mil milhões de dólares, face aos 74 mil milhões do exercício anterior, um crescimento de 15%. Este esforço coloca as despesas militares indianas em 2% do Produto Interno Bruto, um patamar simbólico e estrategicamente assumido.

Este aumento significativo ocorre num momento em que a Índia enfrenta uma deterioração do seu ambiente de segurança regional. Em Maio de 2025, Nova Deli lançou a operação Sindoor em resposta a um atentado no Caxemira, atribuído ao Paquistão. A ofensiva incluiu ataques aéreos contra alvos paquistaneses e desencadeou uma guerra de quatro dias, marcada pelo uso intensivo de aviões de combate, drones armados e mísseis supersónicos, de ambos os lados. O episódio funcionou como um alerta brutal para as fragilidades e lacunas do dispositivo militar indiano.

“A operação Sindoor teve um impacto directo no aumento do orçamento, o mais significativo dos últimos anos”, explica Dinakar Peri, especialista em assuntos militares da Fundação Carnegie. Segundo o analista, o conflito evidenciou a necessidade urgente de aviões de combate adicionais, sistemas de vigilância e reabastecimento aéreo, radares, drones, munições de precisão e defesas antiaéreas modernas. Mais do que uma resposta conjuntural, trata-se de uma reavaliação estrutural das capacidades militares do país.

O governo de Narendra Modi está, assim, empenhado numa verdadeira corrida para dotar as forças armadas das tecnologias militares mais avançadas. “O aspecto mais importante deste orçamento é a modernização dos nossos três ramos militares”, declarou o ministro da Defesa, Rajnath Singh, numa mensagem publicada na rede X após a apresentação do plano orçamental. A prioridade é clara: transformar um exército numeroso, mas por vezes envelhecido, numa força tecnologicamente credível.

Entre os dossiers mais emblemáticos está o da Força Aérea Indiana, que sofre de uma escassez crónica de aeronaves. Nova Deli deverá em breve concluir um megacontrato com a Dassault Aviation para a compra e cofabricação de 114 caças Rafale, num negócio estimado entre 25 e 35 mil milhões de dólares. Segundo fontes próximas do processo, a questão já não é saber se o acordo será assinado, mas quando.

Este esforço de rearmamento é também ditado pela evolução do equilíbrio estratégico na região. A China, com quem a Índia mantém disputas fronteiriças persistentes, reforçou de forma significativa as suas capacidades militares nos últimos anos. Pequim tornou-se igualmente um fornecedor-chave de armamento para o Paquistão, que utilizou com eficácia equipamentos chineses durante o conflito da primavera passada. Para Nova Deli, esta dupla pressão constitui um desafio directo à sua capacidade de dissuasão.

Num contexto em que salários e pensões absorvem mais de metade do orçamento da Defesa, o reforço das verbas destinadas ao equipamento visa reequilibrar prioridades. O objectivo é assegurar que o investimento em tecnologia e armamento não seja sistematicamente sacrificado em favor de despesas correntes, um problema estrutural há muito apontado pelos especialistas.

O novo envelope orçamental permitirá ainda responder a compromissos iminentes. A Índia encontra-se em negociações com o grupo alemão ThyssenKrupp para a aquisição de submarinos, num contrato avaliado em cerca de 8 mil milhões de dólares. Paralelamente, estão previstas encomendas de mísseis, radares e sistemas de defesa antiaérea junto de vários fornecedores internacionais. Mais do que compras isoladas, estas decisões traduzem uma estratégia coerente: garantir à Índia uma autonomia militar compatível com as suas ambições de potência regional e global.

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