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Dois russos acusados de interferência política em Angola: um caso que mistura geopolítica e controvérsia

Consultores e tradutores russos enfrentam tribunal angolano sob acusações de terrorismo, espionagem e campanha de desinformação, enquanto o país permanece no olho do furacão político.

Dois cidadãos russos, Igor Ratchin, consultor político, e Lev Lakshtanov, tradutor, vão comparecer em tribunal em Angola acusados de fomentar manifestações antigovernamentais, conduzir uma campanha de desinformação e tentar interferir na eleição presidencial do próximo ano. Arrestados em agosto do ano passado, os dois enfrentam onze acusações, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influência, segundo documentos obtidos pela BBC.

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O ato de acusação descreve uma operação supostamente destinada a alterar o panorama político angolano, organizada pelo grupo Africa Politology, derivado do antigo grupo Wagner, fundado por Evgueni Prigojine, que faleceu em 2023 num acidente de avião. Os advogados de Ratchin e Lakshtanov contestam estas acusações, alegando que carecem de “factos concretos e objetivos”.

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A acusação sustenta que os russos agiam em nome do Africa Politology, rede opaca de agentes e serviços de inteligência com atividades históricas em África, incluindo a República Centro-Africana, Mali e Madagáscar. A defesa afirma que não existia ligação com Wagner nem com o Estado russo, e que os acusados cooperavam para criar uma “Casa da Cultura Russa” em Luanda.

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Angola, com vastos recursos petrolíferos e de diamantes, é estratégico para Moscovo, embora o país tenha gradualmente distanciado-se da influência russa desde a Guerra Fria. A saída da empresa de diamantes Alrosa e do banco VTB do país, devido a sanções internacionais, evidencia este afastamento.

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Além dos russos, dois angolanos estão igualmente acusados de colaborar na operação: o jornalista esportivo Amor Carlos Tomé e o ativista político Francisco Oliveira, com nove e cinco acusações cada. Segundo a acusação, os réus recrutaram estes indivíduos para espalhar desinformação e influenciar a política local, sendo pagos com somas que ultrapassam 13 milhões de francos CFA.

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Os documentos judiciais afirmam que a primeira equipa russa chegou a Luanda em 2024 sob o pretexto de abrir um centro cultural que nunca se concretizou. Entre eles estava Maxim Shugalei, agente próximo de Wagner, sancionado pela União Europeia, que viajou com Samer Suaifan, seu intérprete de longa data.

As evidências citam pagamentos a jornalistas e especialistas locais, bem como publicações em páginas que imitavam meios de comunicação angolanos, para semear propaganda e desinformação. A defesa sustenta que nenhum dos acusados ordenou a produção de artigos, e que não existem provas objetivas de intenções subversivas.

O ato de acusação indica encontros com figuras políticas do MPLA e da Unita, incluindo o general Higino Carneiro e Adalberto Costa Junior, alegando ofertas financeiras e apoio estratégico, sem apresentar provas concretas. Os advogados reforçam que as alegações carecem de evidência objetiva.

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Em julho de 2025, Angola viveu as manifestações mais violentas desde o fim da guerra civil entre MPLA e Unita. Uma greve inicial de taxistas em Luanda evoluiu para um movimento nacional com confrontos e repressão policial, resultando em pelo menos 29 mortos e mais de 1.200 detidos.

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Analistas locais e internacionais destacam que a instabilidade tem raízes socioeconómicas: cerca de 40% da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza, e as manifestações refletiam condições de vida, não ordens estrangeiras. O ato de acusação contém inconsistências factuais, incluindo datas conflitantes relativas à chegada de agentes russos, que questionam a credibilidade do caso.

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Fontes russas indicam que os acusados eram contratados privados e não representantes do Estado, e que a Rússia não pretende intervir: “Deixemos que esses vestígios da operação de Prigojine se desenrasquem sozinhos”, declarou um representante diplomático.