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Ebola na RDC: OMS alerta para surto “mais grave do que o estimado” após falhas críticas na deteção do vírus

A propagação da variante Bundibugyo do vírus Ebola expõe falhas graves nos sistemas de vigilância sanitária da República Democrática do Congo e levanta preocupações sobre a capacidade regional de resposta.

Modelizações conduzidas por investigadores do Imperial College London indicam que a dimensão real do surto poderá ser muito superior às estimativas atuais. Apesar das incertezas, os cientistas acreditam que o vírus circula há vários meses sem identificação adequada.

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O médico e professor de saúde pública Craig Spencer descreveu a situação como um “verdadeiro caos”, sublinhando que as autoridades ainda não possuem uma visão clara do número real de infeções.

WHO chief concerned over 'scale and speed' of Ebola outbreak as Congo  reports 134 dead

A OMS classificou o risco epidemiológico como elevado para a África Central, embora continue a considerá-lo baixo em escala internacional. Contudo, documentos internos consultados pela agência Reuters revelam falhas consideradas “críticas” no processo de deteção inicial do vírus.

O primeiro caso identificado envolveu um profissional de saúde que apresentou febre, vómitos e hemorragias antes de morrer na cidade de Bunia, capital da província de Ituri, a 24 de abril, segundo o ministro congolês da Saúde, Samuel Roger Kamba.

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Apesar da gravidade dos sintomas, a OMS apenas foi informada sobre uma doença desconhecida na localidade de Mongbwalu no dia 5 de maio. O surto só seria oficialmente declarado dez dias depois.

Os documentos internos apontam para um baixo nível de vigilância clínica entre os profissionais de saúde locais, fator que terá contribuído diretamente para o atraso na resposta sanitária.

Laboratory Testing for Ebola | NETEC

No centro da crise encontra-se também um erro laboratorial considerado decisivo. O laboratório de Bunia possuía apenas testes calibrados para a variante Zaïre do vírus Ebola, responsável pelas anteriores grandes epidemias registadas no país.

Entretanto, o atual surto é provocado pela variante Bundibugyo, uma estirpe rara que não era identificada na RDC desde 2012. Como o laboratório local não possuía capacidade de sequenciamento genético, os primeiros testes produziram resultados negativos.

As amostras deveriam ter sido imediatamente enviadas para laboratórios especializados em Kinshasa ou Goma, mas acabaram armazenadas inadequadamente durante vários dias.

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica do Congo, Jean-Jacques Muyembe, criticou duramente as falhas de protocolo, afirmando que as amostras deveriam ter sido enviadas imediatamente para análise complementar.

Quando finalmente chegaram aos laboratórios centrais, os materiais tinham sido conservados a temperaturas inadequadas e em volumes insuficientes, reduzindo drasticamente a capacidade de realização de testes.

In Urban DRC, Chaos Reigns as Mourners Abandon Funeral Traditions

As autoridades sanitárias também alertam para o impacto das práticas funerárias tradicionais na propagação do vírus. Em várias comunidades afetadas, os familiares continuaram a lavar e tocar os corpos durante cerimónias fúnebres, acreditando inicialmente que as mortes tinham origem mística.

Segundo o ministro Samuel Roger Kamba, foi precisamente durante esses rituais que os casos começaram a explodir em Mongbwalu.

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O coordenador da ONG Alima, Mamadou Kaba Barry, explicou que essas tradições culturais profundamente enraizadas representam um dos maiores desafios para conter a epidemia.

A situação é agravada pela redução do financiamento internacional destinado à saúde pública na região. Especialistas afirmam que anos de subinvestimento fragilizaram os sistemas de vigilância epidemiológica e reduziram a disponibilidade de equipamentos de proteção individual.

Ebola outbreak in DRC declared international emergency - New Era

Segundo responsáveis humanitários presentes no terreno, muitos centros de saúde da província de Ituri operam atualmente sem material básico de proteção para médicos e enfermeiros.

O enfraquecimento das estruturas de assistência internacional, incluindo cortes recentes ligados ao desmantelamento parcial da USAID durante o segundo mandato de Donald Trump, é apontado como um fator adicional de vulnerabilidade.📷 [Image placeholder: emergency Ebola response teams mobilizing in eastern DRC]

Os investigadores alertam ainda que a variante Bundibugyo continua pouco conhecida pela comunidade científica. Segundo a imunologista Aurélie Wiedemann, não existe atualmente nenhum tratamento ou vacina com eficácia comprovada contra esta estirpe específica.

A especialista recorda que a variante apresenta apenas cerca de 65% de semelhança genética com a estirpe Zaïre, utilizada no desenvolvimento da principal vacina disponível atualmente.

De acordo com a organização Médecins Sans Frontières, a taxa de mortalidade associada à variante Bundibugyo poderá situar-se entre 25% e 40%.

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