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A sombra da xenofobia: a crise social que ameaça o futuro democrático da África do Sul

Movimentos nacionalistas e discursos anti-imigração ganham força na África do Sul num contexto marcado por pobreza, desemprego elevado e crescente desconfiança nas instituições do Estado.

As recentes manifestações ocorrem num país cuja história sempre esteve profundamente ligada às migrações regionais. Durante o período do apartheid, milhares de trabalhadores oriundos de países vizinhos eram recrutados para trabalhar nas minas sul-africanas. O tema ficou eternizado na música “Stimela”, do lendário jazzman sul-africano Hugh Masekela, considerada um símbolo da luta contra o apartheid e da memória dos trabalhadores migrantes da África Austral.

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Apesar dessa herança histórica, a xenofobia tornou-se um fenómeno recorrente na era democrática sul-africana. Desde 2008, o país registou várias ondas de violência contra migrantes africanos, especialmente em bairros periféricos e townships urbanos. Ataques, saques e perseguições provocaram dezenas de mortes e milhares de deslocados ao longo dos últimos anos. Em muitos casos, estrangeiros foram responsabilizados pelos problemas económicos e sociais enfrentados pelas comunidades locais.

Os episódios de violência repetiram-se em diferentes momentos, incluindo ataques contra comerciantes oriundos da África Ocidental e da Corne de África. Declarações públicas de líderes políticos e figuras influentes também contribuíram para reforçar discursos anti-imigração. Analistas apontam que vários partidos políticos utilizaram retórica xenófoba em períodos eleitorais, enquanto políticas migratórias se tornaram gradualmente mais restritivas desde o fim do apartheid.

Communities in South Africa unite to protect businesses from being looted

Com a aproximação das eleições municipais de 2026, movimentos nacionalistas ganharam nova visibilidade. Entre eles destaca-se a operação Dudula, criada em Soweto em 2021, que afirma combater a criminalidade e o colapso dos serviços públicos. O movimento ficou conhecido por bloquear o acesso de estrangeiros a escolas, hospitais e empresas acusadas de empregar migrantes ilegais. As ações são frequentemente divulgadas nas redes sociais e acompanhadas por discursos de forte teor nacionalista.

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Outra organização em destaque é o movimento March and March, liderado por Jacinta Ngobese-Zuma, antiga figura da rádio sul-africana. O grupo ganhou notoriedade após organizar protestos em Durban, East London e Joanesburgo exigindo a expulsão de migrantes ilegais. O movimento concentra críticas sobretudo contra cidadãos da Nigéria e do Gana, embora rejeite publicamente a acusação de xenofobia. O partido ActionSA, liderado pelo antigo presidente da câmara de Joanesburgo Herman Mashaba, demonstrou apoio às manifestações.

Anti-immigration demonstrators, wearing traditional Zulu attire, gather to  stage a protest in Johannesburg, South Africa https://t.co/Rxc028L8DD 📸:  Ihsaan Haffejee

Os movimentos xenófobos utilizam frequentemente discursos sobre uma suposta “invasão” de estrangeiros, apesar dos números oficiais indicarem uma realidade mais moderada. Estima-se que a África do Sul tenha entre três e quatro milhões de imigrantes numa população total de cerca de 63 milhões de habitantes. A maioria continua proveniente da África Austral, embora os fluxos migratórios vindos da África Ocidental e da Corne de África tenham aumentado nas últimas décadas.

Muitos migrantes trabalham no comércio informal, tornando-se alvos visíveis em períodos de tensão social. Outros ocupam funções qualificadas em áreas como saúde, engenharia e educação, setores onde o país enfrenta escassez de profissionais. Ainda assim, o discurso anti-imigração continua a crescer, alimentado pela crise económica e pela deterioração das condições de vida nas zonas urbanas mais pobres.

It is just a hustle': A migrant vendor speaks – South Africa Labour Bulletin

Analistas consideram que a xenofobia está fortemente ligada ao fracasso dos governos pós-apartheid em reduzir desigualdades sociais e melhorar serviços públicos. Atualmente, a taxa de desemprego supera os 30%, enquanto milhões de sul-africanos vivem abaixo da linha de pobreza. A degradação das infraestruturas, cortes de eletricidade, insegurança e corrupção intensificaram o sentimento de frustração em várias comunidades.

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Durante a presidência de Jacob Zuma, as desigualdades agravaram-se e múltiplos escândalos de corrupção atingiram instituições do Estado, incluindo o Ministério do Interior. Em 2026, uma investigação ordenada pelo presidente Cyril Ramaphosa revelou esquemas de corrupção ligados à emissão de vistos e documentos migratórios. O escândalo reforçou a perceção pública de descontrolo sobre a imigração e fragilidade institucional.

IN PICS | Violent protests over electricity spread through Durban township

A crise também aprofundou tensões identitárias e étnicas dentro da sociedade sul-africana. O nacionalismo zulu voltou a ganhar destaque em movimentos populistas recentes, sobretudo na província de KwaZulu-Natal. Em várias manifestações, participantes surgem vestidos com trajes tradicionais zulus, refletindo um processo de reforço identitário associado ao discurso anti-imigração.

Especialistas alertam que o crescimento desses movimentos representa um desafio sério para a democracia sul-africana. A combinação entre desigualdade extrema, perda de confiança nas instituições e radicalização política poderá intensificar ainda mais as tensões sociais nos próximos anos. A situação preocupa organizações civis, governos africanos e observadores internacionais.

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