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No norte do Mali, Kidal volta a cair e revela a fragilidade persistente do poder central

Rebeldes tuaregues e grupos jihadistas retomam controlo da cidade estratégica após ofensiva coordenada contra a junta militar

A cidade estratégica de Kidal, no norte do Mali, voltou a cair sob o controlo de rebeldes independentistas tuaregues e grupos jihadistas, após uma série de ataques coordenados contra posições da junta militar em várias regiões do país. A informação foi confirmada por fontes locais e por um responsável próximo da administração regional, num contexto de grande instabilidade. Este episódio representa mais um capítulo numa longa disputa pelo controlo desta cidade simbólica, considerada um bastião histórico das rebeliões no norte malinês.

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Segundo diversas fontes, as forças armadas malianas e os combatentes estrangeiros ligados ao grupo Africa Corps, que substituiu o grupo Wagner, abandonaram a cidade após os confrontos. Os rebeldes do FLA (Frente de Libertação do Azawad) reivindicaram o controlo total de Kidal, consolidando a sua posição no terreno. Este recuo militar ocorre poucos meses depois de a cidade ter sido retomada pelo Estado, em novembro de 2023, evidenciando a volatilidade extrema da situação no norte do país.

O Estado-Maior do exército malinês descreveu a retirada como uma “readaptação” e “reposicionamento estratégico”, indicando que as forças foram deslocadas para Anéfis, a cerca de 100 quilómetros de Kidal. Esta explicação oficial contrasta com a perceção no terreno, onde a retirada é vista como um revés significativo para a junta, num momento em que enfrenta múltiplas frentes de instabilidade.

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Apesar da intensidade dos combates no norte, um calmo precário foi observado em Bamako e na cidade de Kati, importante base militar próxima da capital. Após dois dias de confrontos, a situação aparenta estar sob controlo, com mercados, escolas e serviços a funcionarem normalmente. No entanto, a presença de militares fortemente armados nas ruas e vestígios de violência, como veículos queimados e marcas de balas, revelam a tensão ainda latente.

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O aeroporto e zonas estratégicas da capital continuam sob vigilância reforçada, enquanto aviões militares realizam operações regulares. Este ambiente demonstra que, apesar da aparente normalização, o país permanece em estado de alerta elevado, face ao risco de novos ataques coordenados.

Rebel rides

Imagens divulgadas mostram combatentes do FLA armados, reunidos em pontos estratégicos de Kidal e circulando em veículos equipados com metralhadoras. O grupo anunciou ter alcançado um acordo para a retirada das forças russas, que poderão deixar o território através da Líbia. Este desenvolvimento reforça a ideia de uma reorganização das forças no terreno, com implicações importantes para o equilíbrio militar na região.

Nos últimos meses, tem-se observado uma aproximação entre os rebeldes tuaregues e os grupos jihadistas, tradicionalmente rivais. Esta aliança circunstancial visa enfrentar a junta militar e tem como figura central Iyad Ag Ghali, líder do grupo jihadista JNIM, afiliado à Al-Qaeda. Esta convergência representa uma ameaça acrescida, ao combinar capacidades militares e influência territorial.

3 killed and 77 injured in a massive blast caused by explosives in a  southern Nigerian city | The Seattle Times

A situação agravou-se ainda mais com a morte do ministro da Defesa, Sadio Camara, vítima de um ataque com veículo armadilhado dirigido à sua residência em Kati. O governo classificou o ataque como terrorista e decretou dois dias de luto nacional, sublinhando a gravidade do momento. Este episódio marca uma escalada significativa, atingindo diretamente o núcleo do poder militar.

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Em paralelo, vozes da oposição intensificaram as críticas à junta, apelando à sua demissão e à criação de uma transição civil inclusiva. A atual crise é considerada uma das mais graves dos últimos 15 anos, evocando o cenário de 2012, quando grupos armados tomaram controlo de vastas regiões do norte do país.

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Embora o governo tenha anunciado a neutralização de mais de 200 combatentes inimigos, este balanço não foi confirmado por fontes independentes. O número oficial de vítimas permanece limitado, mas há receios de que o impacto real, especialmente entre civis, seja significativamente mais elevado. A falta de dados verificáveis reforça a incerteza e a dificuldade em avaliar a verdadeira dimensão da crise.

O Mali continua assim mergulhado numa crise de segurança profunda, marcada por conflitos armados, alianças voláteis e um Estado com dificuldades em afirmar o seu controlo territorial. A queda de Kidal surge como um símbolo dessa fragilidade persistente e dos desafios que continuam a moldar o futuro do país.

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