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Moçambique entre a riqueza potencial e a pobreza persistente: o papel dos parceiros de cooperação internacional.

Relatório do Banco Mundial expõe fragilidades estruturais, mas levanta também uma questão mais ampla: até que ponto as políticas de cooperação internacional contribuíram para perpetuar o impasse?

Moçambique volta ao centro das atenções internacionais por razões que dificilmente deixam margem para complacência. Um recente relatório do Banco Mundial conclui que o país é hoje o segundo mais pobre do mundo e figura entre os dez mais desiguais, uma combinação que traduz não apenas dificuldades económicas, mas também um desequilíbrio estrutural profundo.

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Segundo os dados divulgados, 81% da população vive com menos de três dólares por dia, o equivalente a cerca de 200 meticais. Um número que, mais do que estatística, revela uma realidade quotidiana marcada por limitações no acesso a bens essenciais e oportunidades.

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O relatório sublinha ainda que o país apresenta um coeficiente de Gini de 50, indicador que mede a desigualdade de rendimentos e que coloca Moçambique entre os mais desiguais do planeta. Este retrato reforça a ideia de que o crescimento económico, quando ocorre, não tem sido suficiente para reduzir disparidades.

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Depois de um período de desaceleração, as previsões apontam para um crescimento modesto: 1,1% em 2026 e 1,8% em 2027, impulsionado sobretudo pela retoma de grandes projectos energéticos, nomeadamente o gás natural. Ainda assim, o próprio Banco Mundial reconhece que esse ritmo será insuficiente para alterar significativamente o quadro actual.

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Pelo contrário, o número absoluto de pessoas em situação de pobreza deverá aumentar em 1,8 milhões até 2028, num contexto agravado por choques climáticos, perturbações económicas e pressões externas. As recentes cheias, que destruíram campos agrícolas e infraestruturas vitais, somam-se ao impacto de factores internacionais, como a instabilidade nos mercados energéticos.

A inflação, por sua vez, deverá atingir 7% em 2026, pressionada pelo aumento dos preços dos alimentos e combustíveis, antes de abrandar ligeiramente no ano seguinte. Num país onde a maioria da população já vive no limite, qualquer variação nos preços tem efeitos imediatos e profundos.

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No plano fiscal, o cenário não é menos preocupante. O Estado enfrenta restrições severas de financiamento, agravadas por níveis elevados de endividamento interno. As projecções indicam que a dívida poderá atingir 52% do PIB até 2028, com o serviço da dívida a absorver uma fatia crescente dos recursos públicos.

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Este contexto coloca em risco investimentos estratégicos, incluindo mais de 50 mil milhões de dólares em Investimento Directo Estrangeiro, sobretudo no sector energético. Paradoxalmente, receitas futuras provenientes do gás natural poderão ser desviadas para cobrir desequilíbrios fiscais, em vez de financiar o desenvolvimento.

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Perante este diagnóstico, o Banco Mundial recomenda um conjunto de reformas: melhor gestão da dívida, controlo da massa salarial do Estado, eliminação de incentivos fiscais ineficazes e reforço da mobilização de receitas internas. Medidas consideradas essenciais para restaurar a confiança dos investidores e criar condições para um crescimento mais inclusivo.

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No entanto, a reacção do Governo moçambicano revela prudência. O porta-voz do Executivo, Inocêncio Impissa, sublinhou que os critérios utilizados pelo Banco Mundial diferem dos indicadores nacionais, nomeadamente os do Inquérito ao Orçamento Familiar. Segundo o responsável, os dados serão analisados antes de qualquer posicionamento oficial.

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Esta divergência metodológica, embora relevante, não dissipa a questão central: a persistência de níveis elevados de pobreza num país com abundantes recursos naturais.

A leitura deste relatório não pode, contudo, limitar-se a uma análise interna. Há uma dimensão frequentemente ignorada no debate público: o papel dos parceiros de cooperação internacional.

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Há mais de quatro décadas que Moçambique beneficia de apoio financeiro, técnico e institucional de organismos multilaterais e países parceiros. Ainda assim, os resultados apresentados hoje pelo próprio Banco Mundial levantam uma questão incontornável: até que ponto essas políticas foram eficazes?

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Se, após décadas de intervenção, o país permanece entre os mais pobres e desiguais do mundo, é legítimo questionar não apenas as políticas nacionais, mas também as estratégias dos próprios parceiros internacionais. Muitos dos programas implementados foram concebidos, financiados ou supervisionados por essas instituições.

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Mais do que um fracasso exclusivamente nacional, o cenário actual pode ser interpretado como um insucesso colectivo, onde modelos de desenvolvimento importados nem sempre se adaptaram às realidades locais. A insistência em determinadas abordagens — centradas em ajustamentos macroeconómicos ou reformas estruturais padronizadas — pode ter limitado soluções mais contextualizadas e sustentáveis.

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Isso não isenta o Estado moçambicano das suas responsabilidades, mas sugere que a reflexão deve ser mais ampla. Se os diagnósticos são recorrentes e os resultados pouco evoluem, talvez seja o momento de questionar os próprios paradigmas de intervenção.

O relatório do Banco Mundial funciona, assim, como um espelho incómodo. Ele revela fragilidades conhecidas, mas também expõe a repetição de diagnósticos que, ao longo dos anos, pouco alteraram a trajectória do país.

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Entre a prudência do Governo e a firmeza das instituições internacionais, permanece uma interrogação essencial: quem responde pelos resultados?

Sem uma reavaliação conjunta — que envolva tanto autoridades nacionais como parceiros de cooperação — o risco é que Moçambique continue preso a um ciclo de diagnósticos severos e mudanças insuficientes.