Moçambique enfrenta uma grave escassez de medicamentos, refletindo uma combinação de fatores internacionais e internos que ameaçam a saúde de milhares de cidadãos. Parte crítica da medicação destinada ao país permanece retida em Dubai, devido aos bloqueios nas rotas comerciais provocados pelas tensões no Médio Oriente, informou a RTP. Entre os medicamentos mais afetados estão os antimaláricos, vitais para o combate a doenças endêmicas, cujo desabastecimento chega em um momento crítico, com a aproximação da época das chuvas, período de maior risco de propagação de malária e outras doenças infecciosas.
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Teste GratuitoO contexto internacional agrava ainda mais o problema. Em resposta a ataques dos EUA e Israel, o Irão protagoniza ataques a países do Médio Oriente, bloqueando a passagem de ajuda humanitária pelo Estreito de Ormuz. Esse cenário fez disparar os custos do transporte aéreo, hoje 70% mais caros que o normal, tornando mais difícil e caro o envio de medicamentos ao país. Para mitigar a situação, uma coligação liderada pelo Reino Unido e França, com cerca de 30 países, anunciou esforços para reabrir a rota, numa tentativa de reduzir o impacto da crise nas economias africanas e permitir que fármacos essenciais cheguem às populações mais vulneráveis.
Internamente, Moçambique enfrenta um problema crônico de desvios de medicamentos. Recentemente, seis funcionários dos distritos de Muembe e Mandimba foram detidos por fornecerem remédios a farmácias privadas, incluindo os tão necessários antimaláricos. Nos distritos de Mandimba, nos centros de saúde de Mitande e Mississi, a prática de desvio de medicamentos e bolsas de recolha de sangue forçou o reforço da segurança nas unidades de saúde. O administrador local, Emídio Xavier, apontou que esses desvios comprometeram seriamente o atendimento básico à população.
O problema não é novo. Em janeiro, uma técnica de farmácia em Sofala foi condenada a 10 meses de prisão por furto agravado de medicamentos, no contexto de uma campanha nacional do governo moçambicano para combater o contrabando de fármacos. O ministro da Saúde, Ussene Isse, reiterou a política de “tolerância zero” frente a desvios e roubos, reconhecendo que tais práticas comprometem gravemente a saúde pública, especialmente em áreas rurais onde o acesso a remédios já é limitado.

A crise evidencia a vulnerabilidade estrutural do sistema de saúde moçambicano, dependente de rotas internacionais instáveis e de uma logística interna muitas vezes precária. A conjunção entre bloqueios comerciais internacionais e desvios locais cria um ciclo perigoso: medicamentos essenciais não chegam às unidades de saúde, os custos do transporte disparam e a população mais vulnerável enfrenta riscos acrescidos de doenças preveníveis.
Para especialistas e autoridades, a situação reforça a necessidade de sistemas de suprimento mais resilientes, com controle rigoroso sobre estoques, fiscalização eficaz e diversificação de rotas de entrega. Sem essas medidas, os efeitos de crises externas, como conflitos no Médio Oriente, continuarão a amplificar problemas endêmicos em Moçambique, tornando a população refém de falhas logísticas e desvios internos.



