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Crise no Golfo e subida do petróleo ameaçam economias africanas

Especialista alerta para inflação, perturbações logísticas e impacto nas exportações, enquanto o continente enfrenta uma possível crise económica provocada pela instabilidade energética mundial.

O aumento recente dos preços do petróleo no mercado internacional começa a provocar efeitos diretos nas economias africanas, com consequências que podem ir muito além do custo do combustível. Segundo o economista Carlos Lopes, antigo secretário-executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África, o continente enfrenta uma combinação de pressões inflacionistas, perturbações logísticas e dificuldades no comércio internacional que poderá tornar a situação económica mais complexa do que em crises recentes.

De acordo com o especialista, o primeiro impacto imediato surge no aumento do custo das importações, sobretudo em países altamente dependentes de combustíveis e derivados refinados no exterior. Muitas economias africanas possuem reservas limitadas e podem ter dificuldades para responder às mudanças no mercado energético global, especialmente num momento em que o comércio marítimo e as cadeias logísticas estão a ser profundamente reorganizadas.

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Grande parte do petróleo consumido em África passa por processos de refinação nos países do Golfo ou depende de rotas marítimas que atravessam essa região estratégica. Com o aumento das tensões e o risco de interrupção no tráfego marítimo, os custos de transporte, seguros e logística estão a aumentar rapidamente. Esse encarecimento deverá inevitavelmente refletir-se no preço final dos combustíveis, afetando consumidores, empresas e governos.

As consequências não se limitam ao setor energético. Lopes alerta que diversas exportações africanas que transitavam pelo Golfo também enfrentam perturbações significativas. O ouro, por exemplo, exportado por vários países africanos e geralmente transportado por via aérea para centros de refinação e comércio internacional, pode sofrer atrasos devido às interrupções no tráfego aéreo. Da mesma forma, vários minerais enviados para processamento na região do Golfo poderão enfrentar obstáculos logísticos.

Essa situação pode provocar problemas de liquidez e fluxo de caixa em alguns países exportadores, especialmente aqueles cuja economia depende fortemente das receitas provenientes desses recursos naturais.

Outro setor particularmente vulnerável é a agricultura. Uma parte significativa dos fertilizantes utilizados em África provém de países do Golfo. Com o estreito de Estreito de Ormuz praticamente fechado ou sujeito a fortes restrições de circulação, o abastecimento desses produtos essenciais poderá ser interrompido, colocando em risco campanhas agrícolas em vários países.

Segundo o economista, todos estes fatores combinados tendem a provocar um aumento generalizado da inflação e uma possível desvalorização das moedas africanas, agravando as dificuldades económicas em muitos Estados. Para Lopes, a situação pode tornar-se ainda mais difícil do que o choque provocado pela guerra na Ucrânia em 2022.

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Além disso, o contexto atual surge num momento delicado para o continente. Nos últimos anos, uma parte significativa dos grandes investimentos estrangeiros em África veio de países do Golfo, particularmente dos Emirados Árabes Unidos. Qualquer instabilidade prolongada na região pode afetar esses fluxos de capital e atrasar projetos estratégicos em setores como infraestruturas, energia e mineração.

Embora o aumento do preço do petróleo possa beneficiar países produtores como Nigéria e Angola, Lopes considera que os ganhos poderão ser limitados. O economista acredita que os efeitos negativos da inflação importada, das dificuldades logísticas e das perturbações comerciais poderão superar os benefícios provenientes do aumento das receitas petrolíferas.

Outro fenómeno observado é a reorganização do tráfego marítimo internacional. Com o risco nas rotas tradicionais do Médio Oriente, vários navios estão a optar por contornar o continente africano através do Cabo da Boa Esperança, na África do Sul.

Em teoria, esta mudança poderia representar uma oportunidade para alguns portos africanos aumentarem a atividade logística. No entanto, Lopes alerta que nem todos os países possuem a infraestrutura ou a capacidade operacional necessárias para aproveitar plenamente esse fluxo adicional de navios.

Alguns portos podem beneficiar mais do que outros. Países como a Namíbia têm estruturas logísticas relativamente bem organizadas para tirar proveito da nova rota marítima. Na África Oriental, o porto de Porto de Mombaça, no Quénia, e o sistema portuário de Djibuti também possuem condições para absorver parte desse tráfego adicional.

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Já outros países enfrentam limitações estruturais. Mesmo a África do Sul, que ocupa uma posição estratégica no tráfego marítimo global, tem registado dificuldades no abastecimento de combustível e desafios operacionais nos seus portos.

Apesar dos riscos imediatos, Lopes considera que a crise atual pode também servir de alerta estratégico para o continente. Para o economista, a instabilidade energética global demonstra a necessidade de os países africanos acelerarem investimentos em autonomia energética, infraestruturas logísticas e capacidade industrial.

Segundo ele, começa a ganhar força entre líderes africanos a ideia de que o continente precisa assumir maior controlo sobre as suas próprias cadeias de produção e abastecimento, reduzindo a dependência de parceiros externos num contexto internacional cada vez mais imprevisível.

Num cenário global marcado por conflitos, tensões geopolíticas e mudanças nas políticas de ajuda ao desenvolvimento, a crise energética atual pode tornar-se um ponto de viragem para a estratégia económica de África, pressionando governos a reforçar a resiliência das suas economias face a choques externos.