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Moçambique | A manhã social do país: cheias afetam mais de 845 mil pessoas e Unicef aponta constrangimentos financeiros na resposta às necessidades das crianças

Entre mortos, deslocações em massa e infraestruturas destruídas, a agência da ONU enfrenta limitações financeiras para responder a uma emergência prolongada, enquanto a ajuda internacional tenta acompanhar a dimensão da crise

As cheias que atingem várias regiões de Moçambique desde o início da época chuvosa, em outubro, transformaram-se numa emergência humanitária de larga escala, com impactos profundos sobre a população, as infraestruturas e os serviços essenciais. Segundo dados atualizados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), o equivalente a 170.248 famílias já foi afetado em todo o país, num contexto marcado pela persistência das chuvas, pela fragilidade das condições de resposta e pelo aumento contínuo das necessidades humanitárias.

Desde 07 de janeiro, foram registados 145 feridos e nove desaparecidos, além de 3.555 casas parcialmente destruídas, 832 totalmente destruídas e 165.946 inundadas, agravando balanços anteriores. Considerando todo o período chuvoso, incluindo as cheias de janeiro, o número de vítimas mortais ascende a 182, com 289 feridos e 844.932 pessoas afetadas, de acordo com o INGD. Perante a gravidade da situação, o Governo decretou alerta vermelho nacional a 16 de janeiro, reconhecendo oficialmente a dimensão da crise.

O impacto das inundações ultrapassa largamente o setor habitacional. As autoridades contabilizam 229 unidades sanitárias e 323 escolas afetadas, assim como 14 pontes, 88 aquedutos e cerca de 3.783 quilómetros de estradas, comprometendo o acesso a cuidados de saúde, educação e mobilidade em várias províncias. Atualmente, permanecem ativos 76 centros de acomodação, acolhendo cerca de 75.264 pessoas, embora alguns tenham sido encerrados nas últimas horas devido à reorganização da resposta.

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É neste cenário que a Unicef tem vindo a alertar para a situação particularmente crítica das crianças, que representam mais de metade da população afetada. A agência das Nações Unidas estima que dezenas de milhares de menores enfrentam riscos acrescidos de doenças, interrupção da aprendizagem e vulnerabilidades de proteção, sobretudo em contextos de deslocação prolongada. Segundo Cláudio Julaia, especialista de emergência da Unicef em Moçambique, a prioridade imediata passa por garantir acesso à água potável, saneamento adequado e cuidados de saúde nos centros de acolhimento, onde o número de latrinas permanece insuficiente face à população deslocada.

No entanto, num paradoxo que expõe os limites do sistema humanitário, a própria Unicef admite que a sua capacidade de resposta está condicionada pela falta de financiamento. A agência elaborou um plano de resposta de seis meses, com foco nas províncias de Gaza, Maputo e algumas zonas de Sofala, estimado em cerca de 34 milhões de dólares, mas reconhece que os recursos disponíveis são insuficientes para alcançar todos os beneficiários necessários. Apesar de estar a mobilizar cerca de 100 toneladas de material humanitário, incluindo kits de higiene, educação e apoio sanitário, a organização alerta que sem reforço financeiro será difícil manter a intervenção no médio prazo.

A situação no setor da saúde é igualmente preocupante. A Unicef sublinha a necessidade de continuar a apoiar o sistema nacional com medicamentos, equipamentos e materiais médicos, de forma a garantir que os serviços permaneçam acessíveis a uma população já fragilizada pelas cheias. Paralelamente, a agência procura mitigar riscos associados à violência e à exploração infantil nos centros de acolhimento, promovendo atividades para manter as crianças protegidas e integradas em ambientes seguros.

No plano educativo, o atraso no início do ano letivo surge como mais um fator de risco. A Unicef distribui kits escolares para alunos e professores e desenvolve atividades informais de aprendizagem, numa tentativa de evitar que a interrupção prolongada comprometa de forma irreversível o percurso educativo de milhares de crianças. Nas próximas semanas, a agência espera alcançar pelo menos 30 mil crianças com apoio humanitário direto.

Face à dimensão da catástrofe, a ajuda internacional tem-se intensificado. União Europeia, Estados Unidos, Portugal, Angola, Espanha, Timor-Leste, Suíça, Noruega, Japão e China, entre outros países, anunciaram e enviaram assistência de emergência. Em Maputo, a Câmara de Comércio Moçambique-China entregou donativos avaliados em 5,9 milhões de meticais, incluindo alimentos, água, kits de higiene e produtos contra mosquitos. A ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Lucas, destacou o gesto como um sinal de “esperança e luz” para as vítimas, anunciando ainda que mais apoio do Governo chinês está a caminho.

Outros países asiáticos também manifestaram solidariedade. As autoridades moçambicanas receberam 130 mil rands do Governo de Bangladesh, gesto igualmente enaltecido pelo Executivo, num reconhecimento do esforço internacional para responder a uma crise que já deixou mais de 845 mil pessoas dependentes de assistência humanitária.

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Apesar da mobilização de doadores e parceiros, os dados mais recentes do INGD confirmam que a situação permanece crítica. No setor agrícola, 440.852 hectares foram afetados, dos quais 275.405 considerados perdidos, atingindo a atividade de 314.780 agricultores. A morte de mais de 408 mil cabeças de gado, entre bovinos, caprinos e aves, agrava a insegurança alimentar e ameaça a recuperação económica de milhares de famílias.

Entre alertas oficiais, promessas de apoio e limitações financeiras assumidas, a crise das cheias em Moçambique expõe uma ironia difícil de ignorar: enquanto a Unicef chama a atenção para a urgência de proteger as crianças, a própria agência depende de um financiamento que tarda em chegar, num contexto em que a emergência se prolonga e as necessidades continuam a crescer.

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