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Sudão: a guerra esquecida que devasta milhões — violência sexual em massa, fome e um país à beira do colapso

Enquanto a diplomacia tenta reanimar um processo de paz em Berlim, o conflito entre o exército e as Forças de Apoio Rápido já deixou dezenas de milhares de mortos, 13 milhões de deslocados e uma crise humanitária descrita pela ONU como a maior do mundo.

A conferência organizada pela Alemanha, marcada para esta quarta-feira em Berlim, surge como mais uma tentativa internacional de relançar as negociações de paz no Sudão e mobilizar ajuda humanitária. O objetivo declarado é ultrapassar os impasses diplomáticos e garantir mais de 1 mil milhão de euros em financiamento, num contexto em que a resposta global permanece muito abaixo das necessidades.

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No entanto, o governo em Cartum contestou a iniciativa, afirmando que a reunião foi organizada sem consulta prévia e alertando que qualquer contacto com grupos paramilitares poderá comprometer a soberania do Estado. A conferência decorre ainda sem a presença do exército sudanês nem das Forças de Apoio Rápido (RSF), as duas partes diretamente envolvidas no conflito.

O contraste entre a diplomacia e a realidade no terreno é brutal. Segundo as Nações Unidas, quase 13 milhões de pessoas foram deslocadas, enquanto a maioria da população vive agora em situação de pobreza extrema e quase o dobro enfrenta insegurança alimentar.

Violência sexual torna-se arma de guerra no Sudão - O País - A verdade como notícia

As pessoas estão exaustas”, relatou Amgad Ahmed, residente em Omdurman, citado pela AFP. “Perdemos trabalho, poupanças e qualquer sensação de estabilidade.”

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Enquanto isso, o conflito continua a intensificar-se. A ONU estima que cerca de 700 civis morreram em ataques com drones nos últimos três meses, numa guerra que já terá causado dezenas de milhares de mortos desde abril de 2023.

O secretário-geral das Nações Unidas e responsáveis alemães descrevem a situação como a maior crise humanitária atual, fora do foco mediático global.

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As tentativas diplomáticas internacionais — incluindo iniciativas lideradas pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito — falharam até agora em produzir qualquer avanço significativo. As acusações mútuas entre patrocinadores regionais continuam a alimentar o impasse político e militar.

A dimensão da crise humanitária agrava-se com o colapso do financiamento internacional. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, apenas 16% das necessidades de ajuda estão atualmente financiadas, deixando milhões sem assistência básica.

Paralelamente, relatórios da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) revelam uma dimensão ainda mais sombria do conflito: a violência sexual tornou-se uma característica sistemática da guerra.

Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025, mais de 3.396 vítimas e sobreviventes de violência sexual foram tratadas em estruturas apoiadas pela MSF, sobretudo mulheres e raparigas, que representam 97% dos casos registados.

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“Esta guerra está a ser travada nos corpos de mulheres e meninas”, alertou a organização, sublinhando que os números representam apenas uma fração da realidade, já que muitas vítimas não conseguem aceder a cuidados médicos em segurança.

Violência sexual contra mulheres e meninas no Sudão do Sul - Vatican News

Testemunhos recolhidos em Darfur descrevem ataques sistemáticos, incluindo violências coletivas, em zonas urbanas, campos de deslocados e áreas rurais. A ONU já alertou que algumas regiões enfrentam riscos de fome declarada, enquanto outras estão em situação limite.

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Apesar de um regresso parcial de alguma normalidade em áreas de Cartum — com mercados reabertos e alguma retoma de serviços — cerca de 1,7 milhão de pessoas regressaram à capital em condições extremamente precárias, muitas vezes para cidades parcialmente destruídas e ainda minadas.

Khartoum's Old Downtown - Sudan Memory

A Conferência de Berlim tenta agora reabrir um espaço diplomático que outras iniciativas semelhantes em Londres e Paris não conseguiram desbloquear. Mas no terreno, a perceção é outra: a guerra não apenas continua, como se tornou estrutural.

No centro de tudo, permanece um país fragmentado, onde a violência militar, a fome e a deslocação massiva coexistem com um silêncio internacional crescente.

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