Após uma etapa na Argélia, o papa Leão XIV é esperado em Yaoundé para uma visita oficial de três dias, entre 15 e 18 de abril de 2026. Num país da África Central com cerca de 30 milhões de habitantes, maioritariamente cristão, mas marcado por profundas divisões políticas e sociais, o chefe da Igreja Católica chega com uma mensagem clara: promover a paz, a reconciliação e o diálogo nacional.
PUBLICIDADE
Anuncie aqui!Esta é a quarta visita de um pontífice ao Camarões, depois das deslocações de João Paulo II em 1985 e 1995 e de Bento XVI em 2009. Nas ruas de Yaoundé, multiplicam-se bandeiras, cartazes e mensagens de boas-vindas, evocando uma “terra de esperança”. O lema da visita — “Reconciliar os corações, curar as nações” — reflete as expectativas depositadas num país atravessado por crises políticas, económicas e securitárias.
Entre os habitantes, a receção mistura entusiasmo e esperança. Em bairros como Bastos, muitos veem na presença do papa uma oportunidade simbólica para aliviar tensões, sobretudo nas regiões anglófonas, palco de um conflito armado que dura há quase uma década. Para outros, como Judith, fiel católica, a visita representa não apenas um reforço espiritual, mas também um momento de alento num contexto nacional marcado por instabilidade.
A deslocação de Leão XIV assume, contudo, uma dimensão que ultrapassa o plano religioso. Enquanto chefe de Estado do Vaticano, o pontífice desempenha também um papel diplomático num país onde persistem tensões ligadas à reeleição presidencial de 2025, desigualdades sociais acentuadas e o conflito nas regiões do Noroeste e Sudoeste. A sua agenda inclui encontros com autoridades políticas, representantes da sociedade civil e o corpo diplomático.
PUBLICIDADE
Anuncie aqui!O encontro com o presidente Paul Biya, no Palácio da Unidade, surge como um momento central da visita. No poder há décadas, Biya continua a ser uma figura dominante num sistema político frequentemente criticado por falta de abertura democrática. Alguns setores receiam, aliás, que a presença do papa possa ser instrumentalizada para reforçar a imagem do regime.
Paralelamente, organizações da sociedade civil procuram aproveitar a ocasião para fazer ouvir as suas reivindicações. Uma coligação de ONG apelou ao pontífice para que utilize a sua autoridade moral no sentido de defender a libertação de prisioneiros políticos e denunciar o uso controverso da legislação antiterrorista contra opositores. Segundo dados apresentados por ativistas, mais de 3.300 pessoas foram detidas desde 2018, com cerca de 2.800 ainda em prisão.
PUBLICIDADE
Anuncie aqui!Para figuras como o defensor dos direitos humanos Hervé Nzouabet, a visita poderá abrir espaço para um diálogo mais amplo sobre reconciliação nacional. Ainda assim, persistem vozes críticas. Alguns cidadãos relativizam o impacto concreto da deslocação, considerando que dificilmente trará mudanças tangíveis no quotidiano da população.
Um dos momentos mais simbólicos da viagem deverá ocorrer em Bamenda, epicentro da crise anglófona. A visita, sob fortes medidas de segurança, acontece após o anúncio de uma trégua temporária por parte de grupos separatistas. Desde 2016, o conflito já provocou milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados, segundo dados internacionais.
PUBLICIDADE
Anuncie aqui!O papa deverá ainda deslocar-se a Douala, onde celebrará uma missa de grande dimensão, reunindo dezenas de milhares de fiéis. Num país onde cerca de 37% da população é católica, a Igreja mantém uma influência significativa, sobretudo através das suas redes de educação, saúde e ação social.
Antes desta etapa camaronesa, Leão XIV passou pela Argélia, onde apelou ao diálogo inter-religioso e ao perdão, numa visita marcada por forte simbolismo histórico. O périplo africano prossegue agora com etapas em Angola e na Guiné Equatorial, numa tournée que reforça o papel do Vaticano no continente.
Entre esperança e prudência, a visita ao Camarões surge como um teste à capacidade de influência moral e diplomática do pontífice. Num país em busca de equilíbrio, a palavra do papa pode não resolver conflitos estruturais, mas tem o potencial de reabrir caminhos de diálogo — num momento em que estes parecem cada vez mais escassos.






