MozLife

Eleição de Péter Magyar abre negociação com Bruxelas e pode influenciar a política europeia em África

Reaproximação entre Budapeste e a União Europeia sobre fundos congelados, Ucrânia e reformas institucionais poderá reforçar a coerência externa da UE e alterar a sua ação no continente africano

A vitória eleitoral do futuro primeiro-ministro húngaro Péter Magyar abre uma nova fase nas relações entre Budapeste e a União Europeia, num momento em que a European Commission procura redefinir o equilíbrio interno do bloco e reforçar a sua capacidade de ação externa — incluindo a sua política em África.

Mais do que uma simples transição política interna, o novo ciclo em Budapeste pode ter efeitos indiretos na projeção global da União Europeia, sobretudo num contexto em que Bruxelas enfrenta concorrência crescente da China e da Rússia no continente africano.

Russia and China are part of the same problem for the United States -  Atlantic Council

Em causa está um pacote de cerca de 18 mil milhões de euros em fundos europeus congelados, além de 16 mil milhões em empréstimos de defesa, suspensos devido a preocupações com o Estado de direito durante o governo de Viktor Orbán.

Para o novo executivo húngaro, o desbloqueio desses recursos é uma prioridade imediata. Mas, em troca, Bruxelas exige reformas estruturais profundas, incluindo combate à corrupção, reforço da independência judicial e proteção das liberdades académicas e mediáticas.

Notícias sobre a sessão plenária do Parlamento Europeu em Bruxelas: 29 - 30  março, 2023

Este processo de reaproximação não se limita ao plano económico. A União Europeia espera igualmente que a Hungria levante o seu veto a um empréstimo de 90 mil milhões de euros destinado à Ucrânia e apoie novas sanções contra a Rússia, num momento de forte tensão geopolítica no espaço europeu.

É precisamente aqui que o impacto pode estender-se para além da Europa. Uma União Europeia mais coesa na sua política externa tende a atuar de forma mais consistente em regiões estratégicas como África, onde os Estados-membros disputam influência com potências externas.

A política europeia em África depende fortemente da unidade interna do bloco, sobretudo em três eixos: segurança, migração e investimento. Divergências internas, como as registadas durante o período de Orbán, enfraquecem a capacidade de Bruxelas em agir de forma coordenada no Sahel, no Corno de África ou no Mediterrâneo.

Por isso, uma eventual normalização das relações com a Hungria pode reforçar a coerência da ação externa europeia, incluindo programas de cooperação com países africanos, políticas migratórias e estratégias de contenção da influência russa e chinesa no continente.

Trump, a Europa e a internacional neofascista: do apoio ideológico à  coordenação política

Péter Magyar já iniciou contactos com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, comprometendo-se com reformas e com a recuperação da confiança institucional entre Budapeste e Bruxelas.

Com uma maioria parlamentar de dois terços, o novo líder afirma ter margem política para implementar rapidamente mudanças estruturais e cumprir as exigências europeias, num calendário apertado que poderá determinar o desbloqueio dos fundos ainda este ano.

Von der Leyen vai abordar as "fugas de informação da Rússia" da Hungria com  líderes da UE | Euronews

A experiência de outros países, como a Polónia, mostra contudo que este tipo de reaproximação é frágil e depende da implementação efetiva das reformas prometidas. A Comissão Europeia mantém, por isso, uma postura cautelosa.

Neste contexto, a Hungria torna-se mais do que um caso interno europeu: o seu alinhamento ou bloqueio pode influenciar diretamente a capacidade da União Europeia projetar poder político e económico fora das suas fronteiras — incluindo em África.

PUBLICIDADE

Anuncie aqui!