O Papa Leão XIV lamentou esta segunda-feira que “os desejos de muitos sejam explorados por tiranos”, numa declaração feita durante uma deslocação ao leste de Angola, no terceiro dia da sua visita ao país da África Austral. Num território marcado por profundas desigualdades, apesar da abundância de recursos naturais, o pontífice voltou a centrar o seu discurso nas injustiças sociais.
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Anuncie aqui!Recebido com entusiasmo popular entre cânticos e manifestações de alegria, o papa norte-americano chegou a Saurimo, a mais de 800 quilómetros de Luanda, capital do país. A cidade, capital da província da Lunda-Sul, situa-se numa região isolada, próxima das zonas diamantíferas do nordeste angolano.
Numa área marcada por pobreza endémica e impactos ambientais da exploração mineira, denunciados pelo próprio à chegada ao país, Leão XIV voltou a transmitir uma mensagem de forte alcance social. Durante uma missa campal, afirmou que “muitos desejos das pessoas são hoje frustrados pelos violentos, explorados pelos tiranos e iludidos pela riqueza”.
Esta é já a terceira vez que o papa utiliza o termo “tiranos” durante a sua viagem de 11 dias pelo continente africano, depois de intervenções na Argélia e nos Camarões. A repetição do termo reflete uma mudança de tom num pontificado até aqui mais reservado, agora mais direto face às desigualdades globais.
Perante cerca de 40 mil fiéis, aos quais se juntaram outros 20 mil nas imediações, o líder da Igreja Católica denunciou também os efeitos da corrupção. “Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos”, declarou, num discurso marcado por críticas à concentração de riqueza.
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Anuncie aqui!Minutos antes, sob um calor intenso e rodeado por um forte dispositivo de segurança, o pontífice percorreu as ruas da cidade em papamóvel, saudando milhares de pessoas. Em Saurimo, onde vivem cerca de 220 mil habitantes, a Igreja Católica desempenha um papel essencial no apoio social, frequentemente suprindo falhas das infraestruturas públicas.
No domingo, durante uma celebração em Luanda que reuniu cerca de 100 mil pessoas, o papa já havia apelado a “curar o flagelo da corrupção”, defendendo a construção de “uma nova cultura de justiça e partilha”. A mensagem inscreve-se numa crítica mais ampla ao modelo económico do país.
Apesar de dispor de vastos recursos naturais — petróleo, gás, diamantes e minerais —, Angola continua a enfrentar uma distribuição desigual da riqueza. Grande parte dos rendimentos provenientes da exploração destes recursos beneficia uma elite política e económica, bem como empresas estrangeiras.
Segundo dados recentes, cerca de um terço da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza, fixado em 2,15 dólares por dia. Este contraste entre riqueza natural e pobreza estrutural tem sido um dos temas centrais da visita papal.
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Anuncie aqui!Durante a manhã, Leão XIV visitou ainda uma instituição que acolhe cerca de 60 idosos em situação vulnerável, muitos deles abandonados pelas famílias ou vítimas de violência. O encontro ficou marcado por momentos de emoção e testemunhos diretos.
“A sua presença neste lar é uma bênção de Deus”, afirmou Antonio Joaquin, de 72 anos, um dos residentes, que relatou ao papa episódios de violência doméstica. O pontífice foi recebido com cânticos e gestos de alegria por parte dos idosos, vestidos com trajes coloridos.
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Anuncie aqui!Angola conta atualmente com cerca de 44% da população identificada como católica, o equivalente a aproximadamente 15 milhões de pessoas, segundo o recenseamento de 2024. O país ainda carrega as marcas de uma guerra civil devastadora, que terminou em 2002.
Ainda esta segunda-feira, o papa regressa a Luanda para um encontro com bispos, padres e religiosos na paróquia de Nossa Senhora de Fátima. O momento será dedicado à reflexão sobre os desafios da Igreja no país, incluindo a escassez de recursos e o crescimento das igrejas evangélicas.
Leão XIV é o terceiro papa a visitar Angola, depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009. A visita ocorre num contexto simbólico, num país que conquistou a independência de Portugal apenas em 1975, após um longo período colonial.
A sua digressão africana, que já percorreu cerca de 18 mil quilómetros, teve início na Argélia, passou pelos Camarões e termina na Guiné Equatorial, entre 21 e 23 de abril, consolidando uma agenda marcada por apelos à justiça social e à equidade.







