O antigo chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, acusou o bloco europeu de não responsabilizar os Estados Unidos por alegadas violações do direito internacional, numa crítica direta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Em declarações ao POLITICO, Borrell afirmou que a atual liderança europeia tem demonstrado um alinhamento excessivo com Washington e Telavive.
Segundo o antigo alto representante da UE para os Negócios Estrangeiros, o conflito militar entre os Estados Unidos e o Irão não possui justificação legal. “A guerra dos EUA contra o Irão é ilegal à luz do direito internacional e não foi provocada por uma ameaça iminente, como alguns alegaram”, afirmou.
Borrell, que ocupou o cargo entre 2019 e 2024 e foi também vice-presidente da Comissão Europeia durante o primeiro mandato de von der Leyen, acusou a dirigente alemã de ultrapassar as competências previstas pelos tratados europeus.
Na sua visão, a presidente da Comissão tem assumido um papel demasiado ativo na condução da política externa da União. “Ela continua a ultrapassar as suas funções, apesar de o tratado fundador da União Europeia indicar claramente que a política externa não é da sua competência direta”, afirmou.
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Anuncie aqui!O diplomata espanhol foi ainda mais longe ao afirmar que von der Leyen demonstra um posicionamento sistematicamente favorável aos Estados Unidos e a Israel, mesmo quando as decisões tomadas por esses países acabam por ter consequências negativas para a Europa.
Borrell apontou como exemplo o impacto da atual crise energética. “A Europa sofre com o aumento dos preços da energia, enquanto o presidente norte-americano Donald Trump celebra o facto de isso ser positivo para os Estados Unidos, que são exportadores de petróleo”, disse.
A guerra envolvendo o Irão tem sido justificada pela administração norte-americana com diferentes argumentos, incluindo a tentativa de derrubar o regime iraniano e impedir o desenvolvimento de capacidades nucleares ofensivas. No entanto, para Borrell, essas razões não sustentam legalmente a intervenção militar.
O antigo responsável europeu elogiou também a posição do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que se tornou um dos líderes europeus mais críticos das ações militares norte-americanas contra o Irão.
Além disso, Borrell defendeu que a atual chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, deve adotar uma postura mais clara na condenação de violações do direito internacional, independentemente do país envolvido.
“Devemos condenar violações do direito internacional quer sejam cometidas pela Rússia, por Israel ou pelos Estados Unidos. Caso contrário, perdemos credibilidade quando aplicamos as normas internacionais de forma seletiva”, afirmou.
Outro ponto central das críticas foi o acordo comercial negociado entre von der Leyen e Washington no ano passado. Borrell considera que o pacto deve ser rejeitado pelos Estados-membros da União Europeia, alegando que os termos são desfavoráveis para o bloco.
“O acordo foi injusto desde o início”, afirmou. “Os Estados Unidos impõem tarifas de 15% sobre produtos europeus, enquanto a União Europeia reduz as suas próprias tarifas.”
As críticas surgem num momento politicamente sensível para a presidente da Comissão Europeia. Nos últimos meses, membros do Partido Socialista espanhol — aliado do governo de Pedro Sánchez — têm intensificado os ataques à liderança de von der Leyen dentro do Parlamento Europeu.
Parlamentares socialistas criticaram recentemente declarações da dirigente europeia em que afirmou que “a Europa já não pode ser guardiã da antiga ordem mundial”, numa referência às profundas transformações geopolíticas atuais.
Von der Leyen tem procurado manter uma posição equilibrada na crise do Médio Oriente. Embora tenha declarado que o regime iraniano deveria cair, a líder europeia também tem apelado a soluções diplomáticas para o conflito e a uma redução das tensões regionais.
No seu discurso anual sobre o Estado da União, em setembro, a presidente da Comissão Europeia anunciou ainda a intenção de suspender pagamentos bilaterais a Israel e aplicar sanções a ministros considerados extremistas, numa tentativa de pressionar por mudanças políticas.
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Anuncie aqui!Paralelamente, a União Europeia enfrenta outro desafio político interno: o bloqueio de um pacote financeiro de 90 mil milhões de euros destinado à Ucrânia. O plano foi vetado pelos governos da Hungria e da Eslováquia, que exigem que Kiev repare um oleoduto que transporta petróleo russo para os seus territórios.
Para Borrell, esta posição constitui uma violação dos princípios de cooperação dentro da União Europeia. O diplomata sugeriu que os restantes países do bloco poderiam avançar com um empréstimo-ponte temporário para Kiev, enquanto a questão jurídica é analisada pelas instituições europeias.
O debate evidencia as divisões dentro da União Europeia num momento de forte tensão geopolítica e económica, num contexto em que o bloco procura afirmar a sua autonomia estratégica face às grandes potências globais.





