A nova campanha militar dos Estados Unidos contra o Irã tem gerado comparações com conflitos recentes, em especial com a invasão russa à Ucrânia em 2022. Para o jornalista Anton Troyanovski, do New York Times, há paralelos notáveis entre a lógica política das duas campanhas, mais do que nas capacidades militares ou táticas. Entre eles, a tentativa de evitar o termo “guerra”, a mudança gradual dos objetivos e a expectativa de uma vitória rápida, acompanhada da esperança de uma mudança de regime no país alvo.
Um dos elementos mais evidentes dessa semelhança é a retórica da “operação”, em vez de guerra declarada. Tanto em Moscou quanto em Washington, líderes políticos buscam apresentar ações militares como campanhas limitadas e controladas, minimizando a percepção de conflito total. Nos Estados Unidos, o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, descreveu o envolvimento no Irã como uma “operação”, lembrando o termo oficial usado pela Rússia para a invasão da Ucrânia, que foi chamada de “operação militar especial”. Tal linguagem reduz a pressão pública e sugere controle e planejamento estratégico.
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Anuncie aqui!Outro paralelo é a expectativa de resultados políticos rápidos, com a esperança de que a pressão militar leve a crises internas no país adversário. Na Ucrânia, a Rússia esperava uma rendição rápida e um colapso do governo ucraniano, enquanto Donald Trump incentivou soldados iranianos a cessar resistência e sugeriu que cidadãos iranianos aproveitassem a oportunidade para desafiar seu próprio governo. A experiência histórica, porém, demonstra que essas expectativas raramente se realizam: a resistência ucraniana permaneceu firme, e o presidente Volodymyr Zelensky se manteve no poder.
Além disso, observa-se um ajuste gradual dos objetivos políticos. Na Rússia, a invasão começou com metas ambiciosas, como a “desnazificação” e a “desmilitarização” da Ucrânia, mas evoluiu para objetivos mais limitados, como controlar territórios a leste e impedir a entrada do país na OTAN. Nos EUA, Trump inicialmente exigiu a “capitulação incondicional” do Irã, mas posteriormente os objetivos foram restringidos à destruição do programa nuclear e do potencial balístico iraniano. Analistas indicam que tais mudanças ocorrem quando as expectativas iniciais se mostram excessivamente otimistas.
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anuncie aqui!Especialistas alertam que mesmo uma força militar significativa não garante sucesso sem objetivos políticos claros. Michael Kofman, analista militar da Carnegie Foundation, destaca que é fundamental alinhar meios e fins, ajustando planos à medida que os eventos se desenvolvem. Dmytro Kuleba, ex-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, adverte contra confiança excessiva: vencer um país complexo como o Irã pode ser mais difícil do que sugerem planos iniciais.
Para Maria Lipman, professora de estudos internacionais na Northwestern University, a própria surpresa de um conflito militar já indica alto grau de incerteza. Ao engajar-se com o Irã, os Estados Unidos podem estar iniciando uma operação que se transforma gradualmente em um confronto longo e complexo, com consequências políticas globais potencialmente duradouras.
Essa análise evidencia um dilema estratégico: operações militares de curto prazo podem evoluir para guerras prolongadas, reforçando que a superioridade tecnológica ou de poder de fogo não substitui a clareza de objetivos políticos nem a previsão das reações internas do adversário.





