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Cólera continua a afetar norte e centro de Moçambique enquanto autoridades alertam para impacto da desinformação

Mais de 6.600 casos e 76 mortes registados em três províncias. Especialistas alertam que atrasos no tratamento e resistência às campanhas sanitárias dificultam o controlo da doença.

Os surtos de cólera que atingem as províncias de Nampula, Cabo Delgado e Tete já provocaram 6.694 casos cumulativos e 76 mortes, segundo dados divulgados por responsáveis do sector da saúde. Apesar de alguns sinais de controlo em determinados distritos, as autoridades sanitárias alertam que a desinformação, o receio em relação às campanhas de saúde e a demora em procurar assistência médica continuam a agravar o impacto da doença.

Na província de Nampula, no norte do país, o surto activo desde janeiro já registou 3.138 casos e 36 óbitos, afectando oito dos 23 distritos da província. Entre as zonas mais atingidas encontram-se Memba, Eráti, Nacala Porto, Monapo, Ilha de Moçambique, Nacala Velha, Mogovolas e a cidade de Nampula.

Segundo o chefe do departamento provincial de saúde pública, Samuel Carlos, o distrito de Nacala Porto concentra o maior número de infecções, com 1.677 casos registados desde o início do surto. Embora a média diária de novos casos tenha diminuído nos últimos dias, o número de mortes continua a preocupar as autoridades.

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Um dos aspectos mais alarmantes é que a maioria das mortes ocorre fora das unidades sanitárias. Dos 36 óbitos registados em Nampula, apenas oito ocorreram em hospitais, enquanto 28 foram registados nas comunidades, muitas vezes associados ao atraso na procura de tratamento ou ao receio provocado por informações falsas sobre a doença.

Situação semelhante verifica-se em Cabo Delgado, onde o surto iniciado em novembro de 2025 já resultou em 1.006 casos cumulativos e oito mortes. Os distritos mais afectados foram Metuge, Pemba, Montepuez e Mecúfi.

De acordo com o director provincial de saúde, Édson Fernando, o distrito de Metuge registou 370 casos, seguido de Pemba com 288, Mecúfi com 222 e Montepuez com 126. Apesar dos números, as autoridades indicam que existem sinais encorajadores de melhoria, especialmente em Metuge, onde já passaram mais de três semanas sem novos casos registados.

Também nesta província a maioria das mortes ocorreu fora das unidades de saúde: seis nas comunidades e apenas duas em hospitais, realidade que evidencia a necessidade de reforçar a sensibilização das populações sobre a importância do tratamento precoce.

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As equipas sanitárias enfrentaram ainda episódios de resistência comunitária durante as acções de resposta ao surto. Em alguns locais, profissionais de saúde e activistas encontraram dificuldades para realizar desinfecção de residências, distribuição de água tratada e campanhas de sensibilização.

Em Montepuez, por exemplo, um centro de tratamento de cólera chegou a ser vandalizado, permanecendo encerrado durante cerca de uma semana, situação que comprometeu temporariamente a capacidade de resposta das autoridades.

Entretanto, uma campanha de vacinação preventiva contra a cólera permitiu imunizar cerca de 436.700 pessoas nos distritos de Pemba e Metuge, contribuindo para a redução significativa do número de casos nas últimas semanas.

Na província de Tete, no centro do país, o surto declarado em setembro de 2025 já resultou em 2.550 casos confirmados e 32 mortes, afectando seis distritos.

Segundo o médico-chefe provincial, Hélder Dombole, o primeiro foco surgiu na cidade de Tete, espalhando-se posteriormente para Moatize, Changara, Cahora-Bassa, Tsangano e Marara.

O distrito de Changara lidera o número de infecções, com 1.031 casos, seguido da cidade de Tete com 881 e Moatize com 539. Entre os doentes registados, quase mil necessitaram de internamento hospitalar.

Tal como nas outras províncias, a maioria das mortes ocorreu nas comunidades. Dos 32 óbitos registados em Tete, sete ocorreram em unidades sanitárias e 25 fora delas, muitas vezes em zonas remotas de difícil acesso, onde o acesso aos serviços de saúde é limitado.

Apesar do cenário preocupante, as autoridades indicam que o número diário de novos casos tem vindo a diminuir. Se anteriormente eram registados entre 90 e 100 casos por dia, actualmente a média é inferior a 20.

Especialistas em saúde pública sublinham, no entanto, que surtos como este demonstram um desafio frequente em vários países em desenvolvimento: as campanhas de vacinação nem sempre atingem plenamente os seus objectivos.

Embora a vacinação seja uma das ferramentas mais eficazes para controlar doenças infecciosas, factores sociais, culturais e logísticos podem limitar o seu impacto. Entre os principais obstáculos estão a desinformação, a circulação de rumores, a desconfiança em relação às autoridades sanitárias e as dificuldades de acesso às comunidades rurais ou isoladas.

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Em muitos casos, a falta de infra-estruturas básicas, como água potável, saneamento adequado e transporte, também contribui para a propagação da doença, tornando a vacinação apenas uma parte da resposta necessária.

No caso da cólera, especialistas lembram que a prevenção depende igualmente de melhorias nas condições de higiene, acesso a água segura e tratamento rápido dos doentes, elementos que continuam a representar desafios estruturais em várias regiões de Moçambique.

Para as autoridades sanitárias, a lição é clara: combater surtos de cólera exige não apenas vacinas, mas também informação credível, confiança das comunidades e investimento contínuo em infra-estruturas de saúde pública.