O norte do Sudão do Sul voltou a mergulhar no horror no domingo, quando um ataque armado na região administrativa de Ruweng deixou pelo menos 169 mortos, segundo as autoridades locais. Entre as vítimas contam-se 90 crianças, mulheres e idosos, além de 79 membros das forças regionais, incluindo agentes da polícia. O número elevado de civis mortos reacendeu o temor de um novo ciclo de violência generalizada num país cuja paz permanece frágil.
De acordo com o ministro da Informação de Ruweng, James Monyluak Mijok, dezenas de jovens armados invadiram o condado de Abiemnom pouco antes do amanhecer, por volta das 04h30. A população foi apanhada desprevenida, ainda a dormir. Durante três a quatro horas, os confrontos estenderam-se pelas ruas, enquanto casas e mercados eram incendiados. Entre os mortos estão altas figuras da administração local, incluindo o comissário do condado e o diretor executivo, num golpe que atinge diretamente a estrutura política da região.
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Anuncie aqui!As autoridades de Ruweng acusam combatentes provenientes do vizinho estado de Unity e alegam ligações ao Sudan People’s Liberation Army in Opposition (SPLA-IO), movimento liderado pelo vice-presidente Riek Machar. O grupo rejeitou qualquer envolvimento e denunciou uma tentativa de instrumentalização política da tragédia. Até agora, o governo de Unity não respondeu às acusações de que teria tido conhecimento prévio do plano de ataque.
O episódio ocorre num contexto de crescente instabilidade. A United Nations Mission in South Sudan (UNMISS) declarou estar alarmada com a escalada da violência nas últimas 48 horas. Cerca de mil civis procuraram refúgio junto de uma das suas bases na zona afetada. Anita Kiki Gbeho, responsável interina da missão, advertiu que a situação coloca os civis “em grave risco” e apelou à cessação imediata das hostilidades. Pelo menos 23 feridos estão a receber cuidados médicos de emergência sob proteção das forças de paz.
Relatos locais indicam que as vítimas foram enterradas numa vala comum ainda no domingo, devido ao elevado número de mortos e à persistente insegurança. O cenário recorda um ataque semelhante ocorrido no ano passado na mesma área, que deixou mais de 42 civis mortos — um sinal de que a violência recorrente permanece sem solução estrutural.
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anuncie aqui!Entretanto, noutra frente do país, no estado de Jonglei, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) anunciou que 26 dos seus funcionários estão desaparecidos, após semanas de confrontos entre forças governamentais e grupos da oposição. A ONG suspendeu as atividades médicas em Lankien e Pieri. Uma das suas instalações em Lankien foi atingida por um bombardeamento governamental a 3 de fevereiro, segundo a própria organização. Vários colaboradores fugiram com as famílias e encontram-se deslocados em áreas remotas, com acesso limitado a alimentos, água e serviços básicos.
Desde a independência, em 2011, o Sudão do Sul vive sob a sombra de conflitos internos, rivalidades políticas e uma crise económica persistente. O acordo de partilha de poder assinado em 2018 entre o presidente Salva Kiir e Riek Machar, concebido para pôr fim à guerra civil, tem-se deteriorado progressivamente ao longo do último ano. A ONU já advertiu que o país corre o risco real de regressar a uma “guerra civil total” caso o impasse político e os confrontos armados continuem a intensificar-se.
O massacre em Ruweng não é apenas mais um episódio de violência localizada. Ele revela a erosão silenciosa de um compromisso de paz que nunca chegou a consolidar-se plenamente. Num país exausto por anos de conflito, cada novo ataque parece aproximar o Sudão do Sul de um ponto de não retorno.





