Num momento de crescente escrutínio sobre o papel das instituições financeiras multilaterais, economistas alertam para os riscos reputacionais enfrentados por Moçambique após a divulgação do mais recente relatório do Fundo Monetário Internacional. Embora o Presidente Daniel Chapo tenha reiterado o compromisso com reformas estruturais, a avaliação da instituição sublinha que os desafios permanecem profundos, com destaque para a dívida pública, os desequilíbrios fiscais e a necessidade de maior transparência na gestão financeira do Estado.
Para o economista Gabriel Manguele, o diagnóstico divulgado pelo Fundo pode comprometer a capacidade do país de mobilizar financiamento externo adicional. Segundo o especialista, a fragilidade financeira já existente tende a agravar-se num contexto em que a confiança dos credores depende, cada vez mais, da credibilidade institucional. “Este diagnóstico piora a nossa posição enquanto devedores. Tem custos reputacionais, ainda que corresponda à realidade”, afirma, sublinhando que o país terá de adotar medidas rigorosas para evitar uma crise de financiamento antes de 2030. Na sua leitura, os próximos doze meses serão decisivos para implementar reformas capazes de melhorar a perceção externa e restaurar a confiança internacional.
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A avaliação negativa surge num quadro mais amplo de debate sobre o papel e a legitimidade das instituições financeiras globais. Para muitos analistas, o caso moçambicano ilustra uma crítica recorrente dirigida ao FMI: a aplicação de modelos uniformes de ajustamento económico a contextos profundamente distintos, frequentemente acompanhados de exigências de austeridade que restringem a margem de decisão soberana dos Estados. Esta abordagem, argumentam, contrasta com a flexibilidade demonstrada em economias estratégicas ou desenvolvidas, alimentando a perceção de um sistema internacional assimétrico.
Firmino Xavier recorda que Moçambique continua a enfrentar as consequências reputacionais de ter figurado na lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira, relacionada com riscos de branqueamento de capitais. Apesar da saída formal dessa classificação, persistem fragilidades estruturais que influenciam a avaliação externa, nomeadamente a sustentabilidade da dívida, a previsibilidade das reformas e a vulnerabilidade a choques económicos internacionais. Estes elementos, afirma, ajudam a explicar a posição crítica assumida pelo Fundo.
Ainda assim, algumas leituras apontam para margens de manobra. O analista financeiro Dereck Mulatinho sustenta que existe espaço para uma avaliação mais favorável, desde que o país avance com reformas concretas de governação fiscal e institucional. Na sua análise, a expansão da base tributária e o combate à evasão fiscal são determinantes, sobretudo num contexto em que mais de metade da economia permanece no setor informal, limitando a capacidade arrecadatória do Estado e restringindo o investimento público.
O relatório do Fundo reconhece, por outro lado, sinais moderados de melhoria. Estima-se que o défice orçamental tenha diminuído de 6,2% em 2024 para 4,5% em 2025, ao mesmo tempo que se projeta um crescimento económico em torno de 2%. Apesar destes indicadores, a instituição recomenda a implementação de um pacote abrangente de reformas estruturais para consolidar a estabilidade macroeconómica e sustentar o crescimento a longo prazo.
Publicidade
anuncie aqui!A controvérsia em torno destas recomendações ultrapassa, porém, o plano estritamente técnico. Em vários países africanos, cresce a contestação ao que é percecionado como intervencionismo económico condicionado, acusado de reproduzir dependências financeiras históricas e de limitar projetos de desenvolvimento autónomo. A crítica sustenta que, ao privilegiar equilíbrios macroeconómicos imediatos, as políticas de ajustamento tendem a negligenciar as dimensões sociais e produtivas do desenvolvimento.
O debate é intensificado pela experiência de Estados que optaram por reduzir a dependência de programas do Fundo, recorrendo a estratégias alternativas de financiamento ou reforçando a mobilização de recursos internos. Embora esses percursos apresentem resultados diversos, alimentam a discussão sobre a possibilidade de modelos de crescimento menos condicionados por instituições externas.
Neste contexto, a avaliação do FMI sobre Moçambique torna-se mais do que um diagnóstico económico: representa um ponto de tensão entre credibilidade financeira internacional e autonomia política interna. A questão central permanece em aberto: conseguirá o país implementar as reformas exigidas sem comprometer a sua soberania económica nem agravar as fragilidades sociais existentes?
A resposta dependerá não apenas das decisões de política interna, mas também da evolução do próprio sistema financeiro internacional, cuja legitimidade é hoje objeto de um debate cada vez mais amplo.





