Jeffrey Epstein, financista condenado por exploração sexual de menores, continuou a circular entre os homens mais poderosos do planeta mesmo após sua condenação em 2008. Segundo documentos desclassificados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos na sexta-feira, Epstein participou de incontáveis jantares exclusivos com bilionários da Silicon Valley até 2018, quase uma década depois de sua primeira prisão. Entre os convidados dessas reuniões de elite estavam Elon Musk, Jeff Bezos, Larry Page e Sergey Brin, Bill Gates e Marissa Mayer, então vice-presidente do Google.
Esses eventos eram organizados por John Brockman, agente literário e fundador da rede Edge, que reunia artistas, líderes da tecnologia e intelectuais em “jantares suntuosos” e “conferências exclusivas para os ricos, inteligentes e poderosos”, conforme a própria descrição citada pelo Guardian. Epstein atuava como principal mecenas da organização, tendo doado 638 mil dólares entre 2001 e 2015, sendo, em alguns anos, o único financiador de Edge.
Mesmo enquanto cumpria pena, Epstein mantinha acesso privilegiado. Em 5 de junho de 2009, ainda encarcerado, recebeu um e-mail de Brockman perguntando se estaria interessado em financiar um evento em Los Angeles. Libertado semanas depois, em 22 de julho de 2009, e monitorado eletronicamente durante um ano, Epstein figurava no registro de delinquentes sexuais de alto risco do estado de Nova York, mas isso não o impediu de frequentar os círculos mais exclusivos da costa oeste americana.
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anuncie aqui!Em 1º de março de 2011, Epstein compareceu ao “jantar dos bilionários” em Long Beach, Califórnia, em paralelo a uma conferência TED, na companhia de Elon Musk e Talulah Riley, Jeff Bezos, Sergey Brin, Bill Gates, Marissa Mayer, Evan Williams e o músico Peter Gabriel. Apesar de sua presença, o site da Edge omitiu seu nome da lista oficial de convidados.
O padrão se repetiu em anos seguintes. Em 28 de fevereiro de 2012, Brockman enviou um convite direto e sem ambiguidades: “JE – há 20 cadeiras e 21 convidados em uma sala pequena. Venha sozinho. JB.” Epstein compareceu a outros eventos de elite em Vancouver, Toronto e Londres, interagindo com nomes como Paul Allen, Pierre Omidyar e Anne Wojcicki, sempre mantendo uma presença discreta, mas efetiva.
Mesmo após o escândalo envolvendo Virginia Giuffre e o príncipe Andrew em 2015, Epstein continuou sendo convidado a eventos de Brockman, incluindo masterclasses sobre ciência e política e encontros com líderes da indústria. Ele utilizava seu caderno de contatos de alto valor, capaz de reunir indivíduos cujo patrimônio líquido combinava 60% da riqueza de todos os americanos, segundo Brockman.
O impacto dessas revelações reverbera na Silicon Valley, que permanece majoritariamente em silêncio. Elon Musk, entretanto, respondeu publicamente: “Ninguém pressionou mais do que eu para que os arquivos de Epstein fossem tornados públicos. Recusei convites para visitar sua ilha ou viajar no ‘Lolita Express’, mas estava ciente de que alguns e-mails poderiam ser mal interpretados”.
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anuncie aqui!Outros nomes, como Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, também aparecem nos documentos. Em 2014, um e-mail menciona: “Jeffrey receberá Joi Ito e Reid Hoffman no ranch para o fim de semana”, referência à propriedade de Epstein no Novo México. Outra comunicação planejava a viagem de Hoffman à ilha privada de Epstein no Caribe, a Little St. James, conhecida como a “ilha dos pedófilos”. Em 2014, Epstein chegou a contatar Musk sobre Hoffman: “Falei com Reid Hoffman ontem, você vai repetir Saint-Barth para o Natal?” Musk respondeu laconicamente: “Não sei”.
Esses documentos revelam não apenas a capacidade de Epstein de se manter inserido entre as elites globais, mas também expõem a complexa rede de relações que permitia a um condenado manter influência sobre os líderes mais poderosos do mundo, mesmo diante de sua notoriedade pública e escândalos criminais.





