A sucessão de acidentes graves na estrada N1, uma das principais artérias rodoviárias da África do Sul, voltou a colocar sob pressão as autoridades de Pretória — e a lançar preocupação além-fronteiras. Para milhares de cidadãos da África Austral, incluindo moçambicanos que transitam pelo país em direção ao Zimbábue ou regressam da diáspora, esta via é muito mais do que uma estrada nacional: é um corredor regional vital.
Na madrugada de quinta-feira, 19 de fevereiro, cinco pessoas perderam a vida e cerca de 30 ficaram feridas quando um autocarro que seguia para o Zimbábue perdeu o controlo numa curva próxima de Louis Trichardt, na província de Limpopo. Entre as vítimas mortais estava o próprio motorista, segundo confirmaram as autoridades locais. Seis passageiros sofreram ferimentos graves.
O troço entre Louis Trichardt e Musina, antes da fronteira de Beitbridge, ganhou ao longo dos anos a reputação de ser um dos segmentos mais perigosos da N1. É precisamente ali que se concentra uma série de acidentes envolvendo veículos pesados — autocarros e camiões — muitas vezes em circunstâncias semelhantes.
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Anuncie aqui!Perante a repetição dos desastres, a ministra dos Transportes, Barbara Creecy, e o seu vice, Mkhuleko Hlengwa, instruíram a South African National Roads Agency (Sanral) a encontrar uma solução de engenharia urgente para a curva apontada como particularmente crítica. Ao mesmo tempo, solicitaram à Road Traffic Management Corporation (RTMC) um relatório atualizado sobre as inspeções reforçadas a autocarros que cruzam a fronteira de Beitbridge — uma medida ordenada em outubro passado após outro acidente mortal.
A N1 atravessa o país de sul a norte, ligando centros económicos estratégicos e servindo de eixo logístico regional. Para muitos moçambicanos que viajam por estrada para trabalhar, fazer comércio informal ou visitar familiares no Zimbábue e na própria África do Sul, esta rota é frequentemente utilizada como parte do trajeto inter-regional. O aumento da sinistralidade levanta, portanto, preocupações diretas para cidadãos da região que dependem do transporte rodoviário de longa distância.
Nos últimos meses, os números acumulam-se. Em julho do ano passado, um camião descontrolado colidiu com um veículo ligeiro e um autocarro, provocando a morte do motorista deste último. Em outubro, um acidente de grandes proporções vitimou 40 cidadãos zimbabueanos e malawianos que regressavam a casa desde Gqeberha. No final de novembro, cinco pessoas morreram e 15 ficaram feridas num despiste envolvendo vários veículos pesados e ligeiros. Em dezembro, novos acidentes com camiões — incluindo um camião-cisterna — voltaram a interromper a circulação.
No dia de Natal, duas pessoas morreram e sete ficaram feridas numa colisão entre um camião e um autocarro proveniente do Zimbábue. Ainda na semana passada, o trânsito teve de ser encerrado na zona montanhosa próxima do Hendrik Verwoerd Tunnel, após mais um acidente com um veículo pesado.
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anuncie aqui!A repetição de tragédias revela um padrão inquietante: uma combinação de tráfego intenso de longo curso, veículos pesados, troços montanhosos e possíveis falhas de fiscalização ou manutenção rodoviária. As autoridades sul-africanas prometem agora agir com prioridade, tanto na correção estrutural da estrada como no reforço das inspeções técnicas aos autocarros transfronteiriços.
Para Moçambique, país cujos cidadãos circulam regularmente pelas rotas regionais da África Austral, a questão ultrapassa as fronteiras sul-africanas. A segurança rodoviária num eixo como a N1 tem impacto direto na mobilidade laboral, no comércio informal e nas ligações familiares que estruturam a vida económica e social da região.
Enquanto se aguardam soluções técnicas e relatórios oficiais, permanece a constatação inquietante: uma estrada essencial ao desenvolvimento regional tornou-se, em certos pontos, um corredor de risco elevado — e os seus efeitos fazem-se sentir muito para além das fronteiras da África do Sul.





