MozLife

Crise das drogas em Moçambique, a juventude constituindo a primeira vítima do fenómeno 

Hospitalizações por problema de consumo dispararam para mais de 32 000 em 2025, enquanto especial ênfase recai sobre a juventude, o papel de Moçambique como corredor regional e a fragilidade das respostas institucionais.

Em 2025, Moçambique assistiu a um aumento alarmante no número de pessoas atendidas nos hospitais por perturbações mentais e de comportamento associadas ao consumo de substâncias ilícitas, atingindo 32 281 casos, segundo dados oficiais divulgados pelo Governo após a sessão do Conselho de Ministros em Maputo. Este número representa um salto de cerca de 38% em relação aos 23 412 casos registados em 2024, conforme o relatório anual sobre o tráfico e consumo ilícitos de drogas que será submetido ao parlamento moçambicano.

PUBLICIDADE

Teste Gratuito

O crescimento dos atendimentos clínicos é apenas uma das faces de um fenómeno que se estende por vários eixos. As inspeções policiais no país resultaram na apreensão de quatro toneladas e 414 quilogramas de diversas drogas, um indicador tanto de uma intensificação das ações repressivas como da persistência de um mercado interno e transitório de estupefacientes em expansão. Paralelamente, 617 pessoas foram detidas — incluindo 604 cidadãos moçambicanos e 13 estrangeiros — e 308 foram condenadas a internamento em estabelecimentos penitenciários, números ligeiramente superiores aos do ano anterior.

Ilustração de campanha de sensibilização sobre drogas em Moçambique

No terreno social, as autoridades também ampliaram esforços de prevenção e apoio: em 2025 foram realizadas mais de 4 500 visitas domiciliárias de apoio psicossocial e cerca de 60 000 palestras sobre os malefícios do uso de drogas, alcançando mais de 2,79 milhões de pessoas em todo o país — um aumento de quase 49% em relação ao ano anterior. Estes esforços, disseram representantes do Governo, refletem a tentativa de responder a uma tendência de consumo que tem vindo a crescer de forma contínua e que é particularmente preocupante entre adolescentes e jovens.

Publicidade

Anuncie aqui!

O Gabinete Central de Prevenção e Combate à Droga (GCPCD) havia já alertado, no início do ano, para o aumento dos atendimentos hospitalares e destacou que 2 500 dependentes foram reintegrados nas suas famílias, reconhecendo um aumento do consumo entre a juventude. A instituição anunciou um plano estratégico centrado na prevenção, com foco especial em comunidades vulneráveis e adolescentes, e apelou ao reforço da cooperação entre o Estado e a sociedade civil.

Operação policial em Maputo contra o tráfico de drogas

Este panorama não se restringe ao consumo interno. Moçambique é reconhecido por organizações internacionais como um corredor estratégico no tráfico de drogas com destino à Europa e aos Estados Unidos, sobretudo de heroína originária da Ásia, mas as apreensões de cocaína proveniente da América do Sul também têm aumentado, refletindo a complexidade das rotas e mercados transnacionais que cruzam o país.

Publicidade

Anuncie aqui!

A legislação moçambicana sobre drogas, em vigor desde 1997, está agora sob revisão com o apoio técnico do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que anunciou assistência para modernizar o quadro legal e reforçar a resposta do país ao tráfico e aos crimes conexos. Esta reforma é vista como urgente por decisores e especialistas, que assinalam que a lei desatualizada limita a eficácia das respostas estatais às novas dinâmicas do fenómeno.

Cartaz de prevenção ao uso de drogas em contexto comunitário

Analistas e operadores sociais apontam ainda para fatores estruturais que alimentam esta escalada. A posição geográfica de Moçambique, com costas extensas e rotas de transporte chave, favorece a circulação de substâncias ilícitas, que acabam por se infiltrar no consumo interno, sobretudo em centros urbanos como Maputo, Nampula e Beira. Simultaneamente, fragilidades socioeconómicas, incluindo elevados níveis de pobreza, desemprego juvenil e escassas oportunidades educativas e profissionais, criam um terreno fértil para comportamentos de risco e vulnerabilidade frente ao consumo de drogas e à participação em cadeias de tráfico.

Finalmente, o aumento das perturbações mentais associadas ao consumo de substâncias evidencia lacunas mais amplas no sistema de saúde pública. Estudos e relatórios ao longo de 2025 já destacaram que milhares de casos de transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e drogas foram registados, com uma prevalência masculina expressiva e consequências que variam de surtos psicóticos a comportamentos violentos e abandono escolar. As autoridades de saúde e especialistas enfatizam que o consumo problemático de substâncias está intimamente ligado a desafios de saúde pública mais amplos, como o acesso limitado a serviços de saúde mental e a necessidade de programas eficazes de reinserção social que acompanhem estas trajetórias.