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Internacional/América do Sul: Lucas Pinheiro Braathen faz história e conquista primeira medalha olímpica de inverno para o Brasil e América do Sul

O triunfo no gigante slalom em Bormio marca não apenas uma vitória esportiva, mas também levanta questões sobre direitos de atletas, nacionalidade e autonomia no esporte de elite.

O momento chegou como todos os grandes momentos esportivos: primeiro físico, quase palpável. Os esquis rangem, o corpo curva, a linha de chegada se aproxima e, de repente, todos os olhos se concentram em um ponto, como se tivesse gravidade própria. No sábado, Lucas Pinheiro Braathen cruzou a linha de chegada com o tempo combinado de 2 minutos e 25 segundos, superando o suíço Marco Odermatt, campeão defensor, por 0,58 segundos. Odermatt ficou com a prata, enquanto Loïc Meillard garantiu o bronze. Para o Brasil, era a primeira medalha de inverno da história, e, por coincidência e velocidade, era ouro.

Mais do que um feito nacional, trata-se de um marco continental. Nunca antes um país da América do Sul havia subido ao pódio em Jogos Olímpicos de Inverno, e a conquista de Braathen simboliza a entrada da região em um espaço até então fechado, inspirando orgulho e esperança. O próprio atleta descreveu a performance como esqui intuitivo, de coração, sendo plenamente ele mesmo, sem perseguir medalhas ou história. A felicidade, explicou, reside em seguir o próprio sonho, independentemente da aparência, da nacionalidade ou das convenções externas. A sensação de alívio é perceptível — mas o alívio, no caso dele, veio após uma batalha não contra a montanha, mas contra o sistema que controla direitos e escolhas de atletas.

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Braathen nasceu em Oslo, filho de pai norueguês e mãe brasileira, e cresceu falando norueguês e português. Sua trajetória esportiva começou cedo na Noruega, com conquistas na Copa do Mundo e participação olímpica em Pequim 2022. Mas o ponto de ruptura veio com as regras da Federação Norueguesa de Esqui, que controlavam marketing e direitos de imagem dos atletas. Essa restrição minou sua alegria, levando-o à aposentadoria em outubro de 2023.

Menos de cinco meses depois, ele anunciou o retorno, agora representando o Brasil, graças à cidadania brasileira herdada da mãe. A Noruega liberou sua inscrição, permitindo à Federação Internacional de Esqui processar a mudança de nacionalidade, oficializada em março de 2024. Em outubro do mesmo ano, Braathen voltou à Copa do Mundo vestindo as cores do Brasil, pontuando logo na etapa inaugural do gigante slalom em Sölden.

Em Bormio, na pista Stelvio, ele liderou após a primeira descida e manteve a vantagem na segunda, conquistando o primeiro ouro olímpico de inverno do Brasil e, historicamente, a primeira medalha olímpica de esqui alpino do hemisfério sul desde 1998, quando Zali Steggall, da Austrália, ganhou bronze no slalom feminino em Nagano.

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O episódio evidencia tensões maiores. O Brasil celebra um avanço histórico, enquanto a Noruega percebe a perda de um talento. Mas a questão subjacente é sobre propriedade: quem detém a narrativa de um atleta, seu rosto, sua voz, sua história e sua alegria? Federações desejam controle para proteger marcas; atletas buscam liberdade para viver o esporte plenamente. O ouro de Braathen torna essas tensões visíveis e atuais.

Em uma região dominada pelo futebol, onde esportes de inverno sempre pareceram distantes, a medalha chega como símbolo de possibilidade e inspiração. O feito atravessa fronteiras: clipes são compartilhados, tempos são revistos, a margem de 0,58 segundos parece ainda mais impressionante, e o orgulho se espalha por salas e grupos de mensagens onde nunca se viu um par de esquis.

No entanto, o contexto do ouro levanta questões estruturais: se regras de federações podem afastar um atleta do esporte, então a vitória também se torna um espelho das instituições que governam os Jogos. Este ouro não é apenas um resultado final; é uma provocação sobre quem fala pelo país, pelo atleta, e quem possui a história quando ela começa a vencer.

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