No ano de 2025, dois países da América do Sul concentraram uma fatia desproporcional de homicídios contra pessoas que defendem o ambiente e os direitos territoriais: Colômbia e Brasil. Segundo o relatório da organização não governamental Global Witness, citado pela imprensa internacional, estas duas nações foram responsáveis por 52% das mortes registadas de defensores ambientais no período analisado. A leitura torna evidente que a violência dirigida contra activistas não é um fenómeno disperso de forma homogénea, mas sim um problema altamente localizado, com causas e dinâmicas próprias em cada região.
A importância deste dado vai além das vítimas directas. Quando mais da metade dos homicídios se concentra em apenas dois territórios, há implicações directas para a conservação de ecossistemas cruciais, para comunidades indígenas e tradicionais, e para as políticas climáticas regionais e globais. A presença de conflitos por terra, projectos extractivos e pressões por expansão agrícola cria pontos quentes onde a defesa ambiental se transforma num trabalho de risco extremo. O relatório da Global Witness coloca estes homicídios no centro do debate sobre como proteger quem protege florestas, rios e modos de vida locais.
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Anuncie aqui!A própria organização que elaborou o estudo associa os crimes a uma série de factores interligados: lutas pelo controlo de recursos naturais, expansão de actividades económicas no espaço rural, e a presença de grupos armados que se aproveitam de fragilidades institucionais. Numa narrativa comum em zonas de fronteira agrícola e de exploração mineira, os activistas são muitas vezes alvos porque se opõem a projectos que alteram usos da terra ou põem em risco fontes de subsistência. O padrão descrito por especialistas e por entidades de defesa dos direitos humanos aponta para uma convergência entre interesses económicos poderosos e a falta de garantias efectivas para a integridade física de defensores.
A estes factores acrescentam-se problemas estruturais como impunidade e dificuldades de acesso à justiça, que transformam a ameaça em ataque sem consequências legais claras para os responsáveis. Nas áreas mais afectadas, autoridades locais e nacionais enfrentam desafios para garantir investigação independente e protecção adequada. Enquanto tal cenário persista, o risco de novas agressões mantém-se elevado, desmotivando lideranças comunitárias e enfraquecendo iniciativas de conservação que dependem do protagonismo local.

Em Colômbia, o fenómeno inscreve‑se numa longa conjunção de factores: conflitos armados de várias origens, disputa por territórios rurais e projectos de exploração que avançam para zonas remotas. A presença de actores armados não-estatais, em alguns casos com ligações a economias ilegais, cria um ambiente em que lideranças comunitárias e indígenas que defendem formas sustentáveis de uso da terra ficam vulneráveis a ameaças que acabam em homicídio. A contestação por uso da terra assume contornos que não são apenas ambientais, mas também socioeconómicos e políticos, refletindo tensões antigas e novas na periferia do desenvolvimento.
No Brasil, o quadro tem sido marcado por pressões crescentes sobre áreas florestais, expansão agropecuária e conflitos de terra que atingem sobretudo a região amazónica e outras frentes de fronteira agrícola. Activistas que denunciam desmatamento ilegal, grilagem de terras ou violação de direitos de comunidades tradicionais passam a constituir obstáculos para projectos com elevado potencial de lucro, e são muitas vezes tratados como inimigos. As investidas contra defensores, tanto físicas como judiciais, interferem directamente na capacidade de comunidades locais de salvaguardar territórios e modos de vida com importância global para a biodiversidade e o clima.
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Anuncie aqui!O relatório da Global Witness não apenas quantifica assassinatos: ele também serve como alerta sobre a necessidade de medidas concretas de protecção e responsabilização. Entre as exigências que emergem deste diagnóstico estão mecanismos eficazes de investigação, políticas de prevenção que envolvam as comunidades afectadas e soluções para a garantia dos direitos territoriais. Sem respostas governamentais e internacionais que reduzam a margem de impunidade, a repetição destes episódios continuará a minar iniciativas de conservação e a fragilizar a segurança de defensores.
Ao mesmo tempo, este cenário coloca pressão sobre cadeias de produção e mercados internacionais que compram produtos originários de áreas em conflito. Empresas e consumidores têm sido chamados a exigir maior transparência, auditorias e compromissos de due diligence para que actividades económicas não permaneçam associadas a violência e à degradação ambiental. A responsabilização corporativa e a rastreabilidade das cadeias de abastecimento entram, assim, na lista de instrumentos que podem contribuir para reduzir os riscos enfrentados por activistas no terreno.

O problema tem também um ângulo institucional: proteger defensores implica dotar autoridades com capacidade e vontade política para agir. Investigações independentes, protecção policial ajustada aos riscos e a garantia de medidas preventivas para líderes sob ameça são elementos centrais de qualquer estratégia de protecção. Paralelamente, fortalecer o reconhecimento dos direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais é uma peça-chave para diminuir tensões e criar condições de diálogo entre desenvolvimento e conservação.
Dados globais que mostram concentração geográfica de homicídios obrigam a repensar onde se direccionam recursos internacionais de apoio. Organizações de conservação e direitos humanos, fundos multilaterais e parceiros externos que financiam políticas ambientais enfrentam a necessidade de calibrar intervenções para zonas mais perigosas, sem deslocalizar o protagonismo local. Apoiar capacidades locais, promover a segurança jurídica e condicionar investimentos a critérios de respeito pelos direitos humanos são alguns dos caminhos propostos por analistas que acompanham este tipo de relatórios.
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Anuncie aqui!O acompanhamento e a monitorização independente continuam a ser imprescindíveis para medir efeitos de políticas e para expor dinâmicas que, muitas vezes, são silenciadas por interesses instalados. Relatórios como o da Global Witness cumprem o papel de trazer dados e tendências ao debate público, mas a transformação exigirá também trabalho de longo prazo para reduzir a vulnerabilidade de defensores. A cooperação internacional e a pressão da sociedade civil possuem um papel complementares na tentativa de virar a página destes episódios de violência.
Para países fora da região afectada, há lições que não devem ser subestimadas: frentes de exploração mal reguladas, ausência de reconhecimento de direitos territoriais e fragilidade institucional podem criar cenários idênticos em contextos distintos. Em Moçambique e noutros países africanos onde surgem novos projectos extractivos ou pressões sobre terras, a história recente da América do Sul funciona como alerta para a necessidade de normas robustas de protecção e de mecanismos de resolução de conflitos que ponham a segurança de pessoas e comunidades em primeiro plano.

A visibilidade internacional sobre estes homicídios também acende um debate sobre a eficácia de medidas já anunciadas por governos e empresas. Sem indicadores claros de progresso, sem transparência nas investigações e sem a participação directa das comunidades afectadas, as promessas de protecção correm o risco de permanecer no papel. A resposta passa por articular esforços jurídicos, administrativos e comunitários para enfrentar o ciclo de violência e impunidade que afeta activistas ambientais.
A leitura do relatório da Global Witness indica que a solução para reduzir as mortes de defensores ambientais exige compromisso multifacetado: medidas de protecção imediata, reformas profundas nas políticas de uso da terra, responsabilização de quem ordena e financia actos de violência, e garantias para que comunidades possam participar nas decisões que afetam os seus territórios. Sem estes e outros passos concretos, o risco de que líderes comunitários continuem a pagar com a própria vida a defesa de bens comuns permanece elevado.
Ao fechar, fica o desafio para governos, sector privado e sociedade civil: transformar dados alarmantes em políticas efectivas que revertam a tendência e protejam aqueles que lutam pela conservação e pelos direitos territoriais. A emergência de pontos críticos de violência na Colômbia e no Brasil é um sinal de que o acesso à terra, a regulação das actividades económicas e o reforço do estado de direito são questões centrais para a preservação ambiental e para a segurança das comunidades que vivem e defendem estes espaços.


