Apesar das imagens de filas extensas em postos de combustível na região de Maputo, as autoridades moçambicanas insistem: não há, neste momento, uma crise de abastecimento no país. A mensagem foi reiterada pelo Presidente da República, Daniel Chapo, durante uma conferência de imprensa em Malabo, à margem da cimeira da OEACP.
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Teste GratuitoSegundo o chefe de Estado, Moçambique dispõe de reservas suficientes e de navios em trânsito que garantem o abastecimento até finais de abril ou princípios de maio. Trata-se de combustível adquirido antes da recente escalada de preços no mercado internacional, o que permite, por ora, manter uma relativa estabilidade interna.
“Queríamos tranquilizar os moçambicanos que esta crise pode chegar um dia, mas neste momento não há razões de alarme”, declarou o Presidente, sublinhando que o país beneficia de uma antecipação logística que o protege temporariamente dos efeitos imediatos da crise.
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Anuncie aqui!Essa margem de segurança resulta não apenas dos stocks existentes, mas também de carregamentos já assegurados. Navios petrolíferos encontram-se a caminho dos portos nacionais, reforçando uma cadeia de abastecimento que, até agora, continua funcional.
Contudo, a aparente estabilidade esconde fragilidades estruturais. Cerca de 80% das importações de combustíveis de Moçambique passam pelo Estreito de Ormuz, um ponto estratégico atualmente afetado pelas tensões no Médio Oriente. Qualquer perturbação prolongada naquela rota poderá ter repercussões diretas no abastecimento nacional.
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Anuncie aqui!As autoridades reconhecem esse risco. O próprio Presidente alertou que, caso o conflito persista, os próximos carregamentos chegarão com preços mais elevados, o que inevitavelmente se refletirá no custo de vida. “Se a guerra continuar, podemos começar a ser afetados”, advertiu.
No terreno, porém, a perceção pública já parece antecipar esse cenário. A corrida aos postos de combustível intensificou-se nos últimos dias, alimentada em grande parte por informações não verificadas que circulam nas redes sociais. O Governo fala em “pressão artificial” sobre os stocks, provocada por compras excessivas e armazenamento doméstico.
A Direção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis garante que o país mantém um contrato de fornecimento ativo até 2027 e que as importações quinzenais decorrem sem disrupções. Ainda assim, admite que o comportamento dos consumidores está a criar constrangimentos na distribuição.
Também a Amepetrol reforçou que não há risco iminente de rutura, sublinhando que o abastecimento continua a ser gerido de forma coordenada. Para aliviar a pressão, foram inclusive autorizadas operações adicionais nos terminais oceânicos, aumentando a capacidade de distribuição.
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Teste GratuitoMas a questão central permanece: até quando poderá durar esta estabilidade? Os dados oficiais apontam para reservas de cerca de 75 mil toneladas, complementadas por outras 85 mil toneladas armazenadas em terminais, volumes considerados suficientes apenas no curto prazo.
Neste contexto, o Governo insiste numa estratégia de mitigação mais ampla. O aumento da produção interna — sobretudo agrícola e industrial — surge como prioridade para reduzir a dependência externa e amortecer o impacto da subida dos combustíveis nos preços dos bens essenciais.
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Anuncie aqui!A equação é simples, como reconhece o próprio Presidente: combustível mais caro significa transporte mais caro e, consequentemente, produtos mais caros. Num país altamente dependente de importações, essa realidade pode rapidamente traduzir-se em pressão social e económica.
No equilíbrio entre dados oficiais e perceções públicas, a resposta à pergunta inicial revela-se mais complexa do que aparenta. Não há uma crise imediata, mas há sinais claros de vulnerabilidade. Moçambique encontra-se, neste momento, numa zona intermédia — protegido por decisões passadas, mas exposto a um futuro incerto.



