A mensagem enviada pela Europa a Washington foi clara esta semana: o conflito com o Irão não é uma guerra europeia. Reunidos em Bruxelas, os ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27 países da União Europeia analisaram o pedido do presidente norte-americano Donald Trump para que navios europeus ajudassem a garantir a segurança do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.
A passagem, localizada entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, é responsável pelo transporte de cerca de um quinto do petróleo mundial. Desde os ataques aéreos conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão, Teerão respondeu com ameaças a navios comerciais, minas marítimas e embarcações rápidas, o que praticamente paralisou o tráfego na região e provocou uma forte subida do preço do petróleo.
Apesar da importância estratégica da rota energética, os governos europeus demonstraram pouco entusiasmo em envolver-se diretamente na crise, deixando claro que a decisão de iniciar a ofensiva militar partiu de Washington e Telavive.
Após horas de reuniões à porta fechada em Bruxelas, a chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, sintetizou a posição dos Estados-membros:
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Anuncie aqui!“A Europa não tem interesse numa guerra aberta e prolongada”, afirmou. Segundo a diplomata, embora os países da União reconheçam que os seus interesses económicos podem ser afetados pela crise energética, não existe vontade política para enviar navios de guerra para o Estreito de Ormuz.
Entre as propostas discutidas estava a possibilidade de expandir o mandato da missão naval europeia Aspides, atualmente focada na proteção do tráfego marítimo no Mar Vermelho. Essa ampliação permitiria enviar navios europeus para patrulhar diretamente o estreito.
No entanto, a ideia acabou rejeitada. “Não houve apetite entre os Estados-membros para alterar o mandato”, explicou Kallas, acrescentando que “ninguém quer entrar ativamente nesta guerra”.
A posição europeia reflete uma preocupação crescente com o risco de ser arrastada para um conflito prolongado no Médio Oriente, num momento em que vários governos enfrentam pressões internas relacionadas com energia, segurança e economia.
O pedido de apoio feito por Donald Trump acabou por provocar irritação em várias capitais europeias. O presidente norte-americano chegou a advertir que seria “muito mau para o futuro da NATO” caso os aliados recusassem ajudar os Estados Unidos na proteção da rota petrolífera.
Trump afirmou ainda que estava em contacto com sete países para organizar uma operação internacional no estreito e declarou acreditar que a França acabaria por apoiar Washington. Ao mesmo tempo, demonstrou frustração com a posição do Reino Unido, cujo primeiro-ministro Keir Starmer afirmou não querer envolver o país numa “guerra mais ampla”.
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Anuncie aqui!Mesmo assim, o líder norte-americano insistiu que os Estados Unidos não dependem de apoio externo. “Somos a nação mais forte do mundo”, afirmou a jornalistas.
Apesar do discurso firme, o próprio pedido de ajuda é visto por analistas como um sinal de que a crise pode tornar-se mais longa e complexa do que Washington antecipava.
Entre os aliados europeus, a resposta foi direta. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, declarou que “foram os americanos e os israelitas que escolheram este caminho”, sublinhando que a prioridade da Alemanha é a defesa do território da NATO, e não a participação numa nova intervenção militar.
O chanceler alemão Friedrich Merz reforçou a mesma linha, lembrando que a NATO é uma aliança defensiva e não uma organização destinada a intervir em conflitos iniciados fora do seu quadro estratégico.
Já o vice-primeiro-ministro do Luxemburgo, Xavier Bettel, foi ainda mais direto ao afirmar que o seu país não cederá a qualquer tipo de pressão ou “chantagem” para enviar tropas ou navios para a região.
Nos bastidores diplomáticos, a posição dominante entre os governos europeus é clara: o conflito foi iniciado por Washington e Telavive e cabe a eles gerir as suas consequências.
Enquanto o debate político continua, as consequências económicas já se fazem sentir. O bloqueio do Estreito de Ormuz fez o preço do barril de petróleo ultrapassar os 100 dólares, alimentando receios de uma nova crise energética global.
Mesmo assim, uma missão militar da NATO parece improvável no curto prazo. Diplomatas da aliança atlântica admitem que seria difícil obter unanimidade entre os membros para uma operação desse tipo, além de questionarem se ela teria realmente impacto no terreno.
A posição oficial europeia continua a apostar numa solução diplomática. Num rascunho das conclusões da próxima cimeira da União Europeia, os líderes deverão apelar à “desescalada e máxima contenção” no Irão e em todo o Médio Oriente.
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Anuncie aqui!Para muitos governos europeus, a prioridade é evitar um cenário em que uma guerra iniciada por outros acabe por envolver todo o bloco, transformando uma crise regional num conflito internacional de grandes proporções.




