O director do Hotel Polana, em Maputo, confirmou à RTP que a porta da casa de banho onde o banqueiro Pedro Ferraz Reis foi encontrado sem vida estava fechada por dentro, um detalhe considerado central para a análise do caso. Segundo a mesma fonte, o hotel não dispõe de câmaras de videovigilância que captem directamente a entrada da casa de banho, embora duas câmaras próximas não tenham registado qualquer movimento suspeito.
O alerta às autoridades foi dado por Nelson Rodrigues, num contexto que continua envolto em dúvidas e especulações. O caso ganhou contornos internacionais depois de o Governo português anunciar o envio para Maputo de uma equipa especial, composta por elementos da Polícia Judiciária (PJ) e do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, com a missão de apoiar a investigação à misteriosa morte do administrador do BCI.
A chegada desta equipa ocorre num momento particularmente sensível, em que o SERNIC apresentou uma versão dos factos que muitos consideram difícil de aceitar. A narrativa oficial descreve uma sucessão de actos autolesivos que, do ponto de vista médico e anatómico, colocam sérias reservas quanto à sua credibilidade.
De acordo com essa versão, a vítima teria comprado facas e veneno para ratos, ingerido o veneno sem que este tivesse provocado morte imediata, cortado os pulsos, sobrevivido, ferido o próprio pescoço, continuado consciente e, por fim, atingido as próprias costas. Uma sequência que, para muitos observadores, ultrapassa os limites do plausível.
Mesmo em situações de extremo desespero, o corpo humano impõe limites físicos claros. A descrição apresentada pressupõe uma resistência à dor fora do comum, elevada coordenação motora e tempo suficiente para executar vários métodos de morte de forma sucessiva, sem perda de forças ou de consciência. Para vários analistas, trata-se de uma versão que se aproxima mais de um argumento de ficção mal sustentado do que de uma conclusão técnica rigorosa.
É neste ponto que o papel das autoridades investigadoras passa a ser amplamente questionado. Para críticos e sectores da sociedade civil, o SERNIC surge mais como produtor de uma narrativa oficial do que como órgão independente de investigação criminal. Narrativas semelhantes, recorde-se, têm sido frequentemente aplicadas a cidadãos sem meios, sem visibilidade pública e sem capacidade de contestação.
A particularidade deste caso reside no facto de envolver um alto quadro do sector bancário, figura pública e institucionalmente relevante. Ainda assim, a lógica parece repetir-se: quando convém, a morte é classificada como suicídio; quando convém, a perícia transforma-se em opinião; quando convém, a investigação resume-se a um comunicado.
Não se trata apenas de luto ou de comoção pública. Trata-se de responsabilização, transparência e respeito pela verdade. Trata-se de uma prática recorrente de ocultar o que compromete, simplificar o que incomoda e esperar que a sociedade aceite a versão apresentada sem questionar.
Contudo, há histórias que não convencem.
Há mortes que exigem respostas claras.
E há versões oficiais que afrontam a inteligência colectiva e fragilizam a confiança nas instituições.
Quando a verdade é substituída por um enredo absurdo, a mensagem é inequívoca: não é para compreender, é para aceitar. É precisamente esta lógica que hoje gera indignação e reforça a exigência pública por uma investigação séria, independente e transparente à morte de Pedro Ferraz Reis, um caso que continua longe de estar encerrado.
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