A retoma dos megaprojectos de gás natural liquefeito na Península de Afungi, no distrito de Palma, projeta Moçambique para o centro das rotas energéticas globais. O relançamento das operações lideradas pela TotalEnergies e pela ExxonMobil deverá traduzir-se numa intensa movimentação marítima, com a estimativa de 400 navios por ano associados às atividades de produção e exportação de gás natural liquefeito na bacia do Rovuma.
Segundo o procedimento concursal aberto pelas concessionárias, os projectos Mozambique LNG e Rovuma LNG preparam uma infraestrutura logística de grande escala, destinada a assegurar o transporte e o escoamento da produção para os mercados internacionais. A Área 1, sob liderança da TotalEnergies, e a Área 4, conduzida pela ExxonMobil, estruturam-se como pilares de um novo ciclo energético que reposiciona Moçambique no mapa mundial do GNL.
As projeções indicam que a Área 1 poderá movimentar 160 navios-tanque de GNL e 10 navios de condensado por ano, enquanto a Área 4 estima 220 navios-tanque e 15 navios de condensado anuais. Este volume consolidará Afungi como um dos principais pólos energéticos africanos, num contexto de reativação progressiva dos investimentos suspensos após a declaração de força maior em 2021.
O levantamento dessa cláusula em 2024 permitiu o reinício formal do projecto Mozambique LNG, avaliado em 20 mil milhões de dólares, ao passo que o projecto Rovuma LNG, estimado em 30 mil milhões de dólares, aproxima-se da sua decisão final de investimento, prevista para 2026. O Presidente da República, Daniel Chapo, afirmou que o arranque da construção do Rovuma LNG poderá ocorrer dentro de 12 a 18 meses, sublinhando o reforço das condições de segurança na região.
A bacia do Rovuma já produz gás através da plataforma Coral Sul, operada pela Eni, com capacidade de 3,4 milhões de toneladas anuais, e prepara a entrada da unidade Coral Norte, destinada a duplicar a produção a partir de 2028. O dinamismo energético é inequívoco. Contudo, a dimensão logística e financeira dos projectos desloca o foco do debate para uma questão estrutural: qual parte da riqueza gerada permanecerá no país.
A experiência internacional demonstra que a abundância de recursos naturais, por si só, não garante desenvolvimento sustentável. Países que optaram por transformar localmente a matéria-prima, investir em cadeias industriais e formar quadros técnicos conseguiram converter a exploração energética em crescimento estrutural. A Noruega utilizou os hidrocarbonetos para construir uma economia baseada em conhecimento técnico e serviços especializados. O Qatar integrou produção, transformação e logística numa cadeia de valor nacional. A Malásia canalizou receitas energéticas para industrialização e formação técnica.
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anuncie aqui!Esses percursos revelam um padrão convergente: a retenção de valor depende da capacidade de converter recursos em competência produtiva, capital humano e infraestruturas permanentes. No caso moçambicano, a multiplicação de navios em Afungi simboliza apenas a face visível de um processo mais profundo. O impacto económico real dependerá da densidade de empregos qualificados criados, da transferência tecnológica incorporada e da expansão de sectores produtivos associados.
A questão central deixa, assim, de ser exclusivamente logística ou exportadora. O número de embarcações que atracarão em Afungi mede a escala da produção. Mas o indicador decisivo será outro: a proporção da riqueza energética que se transformará em capacidade económica nacional.
Num momento em que Moçambique consolida a sua presença no mercado global de energia, o país enfrenta uma escolha estrutural entre um modelo de exportação de recursos e um projecto de transformação económica. A resposta a essa escolha definirá não apenas o impacto dos megaprojectos de GNL, mas o perfil do desenvolvimento moçambicano nas próximas décadas.





