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Moçambique | A manhã Política do país: entre a guerra, a memória e o futuro

Entre a persistência do terrorismo em Cabo Delgado, os sinais de retoma económica e a reafirmação da unidade nacional, as celebrações do Dia dos Heróis Moçambicanos transformaram-se num retrato condensado dos desafios e das prioridades políticas do país, tal como observados ao longo da manhã por Mozambique Life.

O combate ao terrorismo em Cabo Delgado continua a figurar no centro das preocupações do Estado moçambicano. Foi essa a mensagem reiterada pelo Presidente da República, Daniel Francisco Chapo, durante as celebrações do Dia dos Heróis Moçambicanos, assinaladas esta terça-feira na Praça dos Heróis Moçambicanos, em Maputo. Num discurso de forte densidade política e simbólica, o Chefe do Estado sublinhou que, apesar dos avanços registados no terreno, a erradicação da violência armada permanece como um dos maiores desafios nacionais.

Entre os maiores desafios do momento, continua a constituir nossa grande preocupação o fim do terrorismo em alguns distritos da província de Cabo Delgado”, afirmou o Presidente, enquadrando o problema como uma ameaça directa não apenas à segurança, mas também à normalização da vida social e económica da região Norte.

Segundo Daniel Chapo, os progressos alcançados resultam de uma acção concertada entre as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, o apoio das forças do Ruanda, a cooperação da Tanzânia na zona fronteiriça e a participação activa da Força Local. Esta articulação, frisou, tem permitido ganhos operacionais relevantes, traduzidos no regresso gradual das populações às suas zonas de origem e na retoma de projectos estruturantes, em particular no sector energético.

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O Presidente apontou como sinal emblemático dessa melhoria o anúncio, feito a 29 de Janeiro, da retoma do projecto de gás natural liderado pela TotalEnergies, em Afungi, após o levantamento da situação de Força Maior. A decisão representa um marco simbólico e económico, numa província onde a insegurança travou investimentos estratégicos e aprofundou vulnerabilidades sociais.

A recuperação do ambiente de segurança, acrescentou, começa também a reflectir-se em iniciativas de desenvolvimento local. Chapo citou a inauguração da Fábrica de Processamento de Pescado em Mocímboa da Praia como exemplo concreto de como a estabilização pode gerar impactos directos na vida das comunidades.

Ainda assim, o discurso presidencial evitou qualquer tom triunfalista. O terrorismo, reconheceu, continua a ser um desafio relevante, mas não pode paralisar o país. “Enquanto combatemos o terrorismo, não paramos com o desenvolvimento da província de Cabo Delgado e do nosso belo Moçambique”, declarou, numa tentativa de afirmar a simultaneidade entre segurança e crescimento económico.

Num plano mais simbólico, o Chefe do Estado exaltou a bravura, determinação e espírito combativo das Forças de Defesa e Segurança, classificando a segurança como condição indispensável para o desenvolvimento nacional. As palavras ganharam peso particular no contexto do Dia dos Heróis Moçambicanos, data em que o país homenageia os combatentes da luta de libertação e reafirma os valores da soberania e da unidade nacional.

Essa dimensão memorial esteve igualmente presente na evocação dos nacionalistas que enfrentaram o colonialismo, com destaque para Eduardo Mondlane, fundador da FRELIMO, cuja morte completa 57 anos. Para Chapo, valorizar os heróis nacionais é mais do que um gesto simbólico: trata-se de um acto de “alto fervor patriótico”, essencial para reforçar o patriotismo, a coesão social e a consciência histórica das novas gerações.

O Presidente apelou ainda à preservação da memória histórica como instrumento de consolidação da paz, da democracia e do Estado de Direito, defendendo a união dos moçambicanos para além das diferenças políticas, religiosas ou culturais. Reconheceu, igualmente, o papel dos “heróis do quotidiano”, que actuam silenciosamente nas áreas da saúde, educação, segurança e protecção civil.

A actualidade impôs-se também através das cheias e inundações que afectaram recentemente várias regiões do país, sobretudo no Sul e no Centro. Chapo manifestou solidariedade com as famílias atingidas e garantiu o empenho do Governo na reconstrução das infra-estruturas e na reposição gradual dos serviços básicos, destacando os actos de bravura registados nas operações de resgate como expressão viva do heroísmo moçambicano contemporâneo.

À margem das cerimónias centrais, o Secretário-Geral da FRELIMO, Chakil Aboobacar, reforçou a ideia de que a unidade nacional continua a ser o principal activo do país. Sublinhou a resiliência do povo moçambicano e a necessidade de manter a paz como condição para a reconstrução e para a independência económica. O diálogo nacional, frisou, permanece em curso e deve ser encarado como via privilegiada para a reconciliação e a estabilidade duradoura.

No sector da saúde, o Ministro Ussene Isse assegurou que o país está preparado para responder às situações de emergência, incluindo o surto de cólera em algumas regiões. O governante destacou a implementação dos protocolos da Organização Mundial da Saúde e apelou à população para reforçar as medidas de higiene e procurar atempadamente as unidades sanitárias.

A partir das províncias, as mensagens convergiram. Em Manica, o secretário de Estado Lourenço Lindonde defendeu que preservar a paz, a vigilância e o diálogo é a melhor forma de honrar os ideais dos heróis da libertação. A governadora Francisca Tomás reforçou que, hoje, o conceito de herói se estende aos homens e mulheres das Forças de Defesa e Segurança e a todos os cidadãos que contribuem, com dedicação e honestidade, para o desenvolvimento nacional.

Num país marcado por desafios múltiplos — da segurança à saúde pública, das calamidades naturais à reconstrução económica —, o 3 de Fevereiro assumiu-se, assim, como um momento de balanço colectivo.

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