A realização da segunda cimeira Itália–África em Addis Abeba assinala uma etapa de consolidação política da estratégia italiana no continente africano. Ao escolher a capital etíope, sede da União Africana, Roma envia um sinal inequívoco: o Plano Mattei pretende afirmar-se não como iniciativa paralela, mas como instrumento integrado nas prioridades estratégicas africanas.
Para a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a presença na assembleia continental e a realização da cimeira em território africano traduzem uma ambição explícita de reposicionar a Itália como ponte política, económica e estratégica entre a Europa e África. O gesto tem um alcance que ultrapassa a diplomacia simbólica. Trata-se de uma tentativa de redefinir os termos da cooperação euro-africana, substituindo modelos hierárquicos por uma lógica declaradamente paritária.
Dois anos após o seu lançamento formal, o Plano Mattei entra numa fase de avaliação operacional. A iniciativa envolve atualmente catorze países africanos e cerca de uma centena de projetos distribuídos por áreas estratégicas que vão da transição energética à segurança alimentar, passando por infraestruturas físicas e digitais, saúde, educação e inovação tecnológica. A amplitude sectorial revela uma abordagem integrada, concebida para articular desenvolvimento económico, estabilidade política e modernização tecnológica.
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Anuncie aqui!A credibilidade do projeto assenta, em grande medida, na sua arquitetura financeira. Nos últimos dois anos, a Itália reforçou sinergias com instituições multilaterais, entre as quais a Banco Africano de Desenvolvimento e a Banco Mundial, mobilizando mais de mil milhões de euros em financiamentos, garantias e instrumentos concessionais. Esta dimensão operacional é apresentada por Roma como prova de que o Plano Mattei pretende ir além das declarações políticas, assumindo-se como plataforma de investimento estruturado.
O encontro de Addis Abeba insere-se, assim, num quadro mais amplo de reconfiguração das relações entre África e Europa. A iniciativa italiana articula-se com programas europeus e multilaterais e procura alinhar-se com a Agenda 2063 da União Africana, reforçando uma lógica de coordenação entre governos africanos, instituições financeiras e parceiros internacionais. A estratégia italiana emerge, neste contexto, como parte de um esforço mais vasto de competição e cooperação geopolítica no continente.
Para o Moçambique, a evolução desta iniciativa poderá ter implicações concretas. A prioridade atribuída às infraestruturas energéticas e logísticas converge com as necessidades estruturais do país, que enfrenta desafios persistentes no acesso à eletricidade, na diversificação económica e na resiliência climática. Projetos de eletrificação, investimentos em energias renováveis e programas de formação técnica podem contribuir para reduzir vulnerabilidades estruturais e impulsionar o desenvolvimento regional.
A dimensão climática da cooperação assume particular relevância. Exposto ciclicamente a ciclones e inundações devastadoras, Moçambique encontra-se entre os países africanos mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas. O reforço de infraestruturas resilientes, sistemas de gestão hídrica e mecanismos de prevenção de desastres surge como área potencial de cooperação estratégica, sobretudo num contexto em que o desenvolvimento sustentável se tornou eixo central da política externa europeia.
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anuncie aqui!No plano geopolítico, a cimeira representa também um teste à capacidade italiana de converter narrativa política em resultados tangíveis. Após a fase de lançamento e estruturação, o Plano Mattei enfrenta agora o desafio decisivo da implementação. A sua sustentabilidade financeira, a coerência com as prioridades africanas e a produção de resultados mensuráveis determinarão o seu impacto real.
Addis Abeba, frequentemente descrita como capital diplomática de África, transforma-se assim no espaço onde Roma procura afirmar uma estratégia de longo prazo. Entre ambição política e pragmatismo económico, a Itália ensaia uma redefinição do seu papel internacional num continente que se tornou central nas dinâmicas globais de poder, desenvolvimento e influência.





