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Internacional /América do Sul: Por trás da ajuda humanitária, um duelo diplomático entre Brasília e Washington?

O governo brasileiro avalia a possibilidade de enviar carregamentos de ajuda humanitária a Cuba, em meio ao agravamento da crise energética que assola a ilha caribenha. A decisão surge depois que os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre o regime cubano nas últimas semanas, gerando tensões diplomáticas que vão além da simples assistência.

Fontes do governo brasileiro revelaram, sob condição de anonimato, que Brasília estuda o envio de medicamentos e alimentos a Cuba, mas ainda não definiu volumes, datas ou logística de transporte, dado que o país enfrenta restrições no comércio de combustíveis usados na aviação. A viabilização dessa ajuda deverá contar com o apoio dos ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Agrário (MDA).

Segundo um integrante do governo, há a percepção de que o presidente norte-americano, Donald Trump, busca estrangular economicamente o regime cubano para forçar uma eventual mudança política. O tema é considerado sensível, sobretudo diante da aproximação que se espera entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump durante a visita oficial de Lula aos Estados Unidos, prevista para março.

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Durante evento recente do PT, Lula criticou explicitamente as medidas adotadas pelos EUA contra Cuba, reforçando a percepção de que Brasília pode buscar se colocar como um contrapeso regional às pressões norte-americanas. “Nosso país é solidário ao povo cubano, que sofre com a especulação dos Estados Unidos. Precisamos encontrar uma forma de ajudar”, afirmou o presidente petista.

A crise energética cubana, crônica há anos, atingiu níveis críticos nas últimas duas semanas. A decisão dos EUA de sancionar países que comercializem petróleo com Cuba, aliada à detenção do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, agravou o cenário. Historicamente, a Venezuela fornecia petróleo em troca de serviços médicos, mas os embarques foram interrompidos, deixando a ilha sem combustível suficiente para transporte, hospitais, escolas e atividades econômicas básicas.

As restrições afetaram diretamente o setor aéreo. A Air Canada suspendeu voos para Cuba, e outras companhias passaram a fazer escalas na República Dominicana antes de seguir para Havana. Em reação, o governo brasileiro avalia o envio de ajuda humanitária por via aérea, possivelmente saindo de aeroportos do Norte do Brasil, para que as aeronaves possam completar a viagem sem precisar de reabastecimento na ilha.

A mobilização internacional não se limita ao Brasil. Recentemente, a Marinha do México enviou duas embarcações com mais de 800 toneladas de alimentos e produtos de higiene. A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, afirmou que novos envios estão previstos, mesmo sob pressão norte-americana.

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O governo cubano classificou as medidas como um “bloqueio energético”, ressaltando que os impactos atingem diretamente turismo, produção de alimentos e serviços essenciais. Em fevereiro de 2024, o Brasil já havia enviado 125 toneladas de leite em pó a Cuba, dentro de um acordo que envolvia também os Emirados Árabes Unidos, reforçando a tradição brasileira de assistência humanitária regional.

À medida que Brasília pondera seu papel, a questão transcende a ajuda material. Trata-se de um duelo diplomático com Washington, em que o Brasil se posiciona como ator regional capaz de equilibrar interesses, defender a soberania cubana e, ao mesmo tempo, projetar sua influência política no cenário hemisférico. A ajuda humanitária, portanto, assume dupla função: mitigar a crise humanitária em Cuba e sinalizar uma postura independente frente à pressão norte-americana.

Em meio a essa tensão, especialistas destacam que a decisão brasileira pode fortalecer a imagem do país como mediador e ator responsável na América Latina, mostrando que Brasília não se limita a seguir a agenda de Washington, mas procura afirmar uma política externa própria, com ênfase em solidariedade regional e diplomacia estratégica.

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