Com a divulgação, a 30 de Janeiro, de quase três milhões de páginas do extenso dossier Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o nome do bilionário, encontrado morto numa prisão em 2019, regressa ao centro do debate público. Longe de encerrar o caso, a publicação destes arquivos reacende suspeitas antigas e projeta uma sombra persistente sobre a vida política, económica, desportiva e cultural, não apenas nos Estados Unidos, mas também em várias capitais do mundo.
Uma análise inicial conduzida pela revista Politico oferece um retrato parcial, mas revelador, das personalidades envolvidas directa ou indirectamente. Entre elas figura Steve Bannon, antigo estratega político, que manteve contactos regulares e descritos como “estratégicos” com Epstein sobre temas ligados à influência política internacional. Surge igualmente Elon Musk, alvo — e por vezes emissor — de tentativas insistentes de aproximação, ainda que consideradas “sem resultados”. O actual secretário do Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, vê agora antigos e-mails contradizerem as suas declarações anteriores sobre a frequência das interacções mantidas com Epstein. O dossier menciona ainda altos funcionários e dirigentes estrangeiros, incluindo o diplomata eslovaco Miroslav Lajčák, recentemente demissionário, e o ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjørn Jagland.
No entanto, é Donald Trump quem concentra maior atenção mediática. O vice-procurador-geral norte-americano, Todd Blanche, afirmou no domingo, à CNN, que os documentos analisados não contêm “qualquer elemento que permita avançar com acusações criminais”, embora reconheça a existência de passagens consideradas “perturbadoras”. Segundo Blanche, as múltiplas referências ao nome do presidente baseiam-se sobretudo em denúncias anónimas ou não verificadas, insuficientes à luz dos critérios legais. “O mundo pode analisar os documentos e tirar as suas próprias conclusões”, declarou.
Essa análise foi aprofundada pelo New York Times, num dos vários artigos dedicados ao caso. A principal conclusão é clara: apesar de os ficheiros conterem mais de 38 mil menções a Trump, ao seu círculo próximo ou ao clube Mar-a-Lago, não existe qualquer prova documental de comunicações directas entre Trump e Epstein. Algumas referências surgem em relatórios não verificados enviados ao FBI e reunidos numa síntese interna sem elementos de confirmação, que o jornal opta por não detalhar.
Ainda assim, o diário nova-iorquino assinala que certos relatos incluem acusações de agressões sexuais envolvendo Trump e Epstein. Vários documentos reproduzem depoimentos de alegadas vítimas. Uma delas, cujo nome foi omitido, afirma ter sido “transportada num veículo de cor verde-escura até Mar-a-Lago para se encontrar com o Sr. Trump”. Segundo o seu testemunho, Epstein teria comentado: “Ela é bonita, não é?”. Pessoas próximas de Epstein confirmaram igualmente que Trump frequentava a sua residência.
Grande parte dos documentos agora divulgados confirma informações já conhecidas, observa o New York Times: fotografias conjuntas, recortes de imprensa arquivados por Epstein e referências ao controverso livro de aniversário de 2003, cuja autoria Trump sempre negou, antes de avançar judicialmente contra o Wall Street Journal por o associar à publicação. Os arquivos revelam também que Epstein continuou a acompanhar atentamente a trajectória política do antigo amigo, mesmo depois de cessados os contactos entre ambos.
Entre os elementos mais intrigantes surge um e-mail datado de Outubro de 2002, enviado a Ghislaine Maxwell e assinado “Melania”. Não é possível confirmar se se trata de Melania Knauss, futura primeira-dama dos Estados Unidos, que já mantinha então uma relação com Trump e com quem se casaria três anos mais tarde. “Querida Ghislaine, começa a mensagem. Belo artigo sobre JE na revista NY. Estás lindíssima na fotografia. Sei que estás muito ocupada a viajar pelo mundo… Aproveita!”. O e-mail termina com “Beijos, Melania”, sendo que o endereço electrónico permanece ocultado, segundo o jornal.
Em contraste, a Fox News limitou-se a publicar um único texto sobre o tema, dando destaque à posição presidencial, segundo a qual os documentos divulgados “provam a sua inocência”. A bordo do Air Force One, Donald Trump afirmou que os arquivos fazem parte de um “complô político” destinado a prejudicá-lo, e ameaçou avançar judicialmente contra o escritor Michael Wolff.
A estação conservadora sustenta que Wolff, autor de vários livros críticos do presidente, terá mantido contactos com Epstein para construir um “contra-relato hostil” a Trump, desviando a atenção mediática durante a sua primeira campanha presidencial. O jornalista respondeu às ameaças em declarações ao Daily Beast: “Não é a primeira vez que os Trump ameaçam processar-me. Até hoje, isso apenas me incentivou a processá-los de volta. Não tenho nada a esconder; eles, certamente, têm.”
Por fim, o congressista democrata da Califórnia Ro Khanna, impulsionador da lei que obrigou o Departamento de Justiça a divulgar o dossier Epstein, afirmou à NBC News que esta nova publicação continua a ser “claramente insuficiente”. Caso os restantes documentos não sejam tornados públicos, advertiu, está disposto, juntamente com o republicano Thomas Massie, a avançar com um processo por desacato ou mesmo destituição contra a procuradora-geral Pam Bondi. No mínimo, defendeu, os indivíduos mencionados nos arquivos deveriam ser alvo de um escrutínio aprofundado, mesmo que não resulte em processos judiciais imediatos.





