A contagem de votos está em curso em várias regiões do Uganda, num contexto marcado por um apagão da internet e por acusações de manipulação eleitoral feitas pela oposição, após as eleições presidenciais e parlamentares realizadas no país.
O candidato presidencial da oposição, Bobi Wine, denunciou nas redes sociais uma alegada “manipulação massiva das urnas em todo o país”, sem, no entanto, apresentar provas documentais. As autoridades eleitorais ainda não reagiram oficialmente às acusações de fraude, nem às alegações de Wine de que “muitos agentes e supervisores eleitorais do seu partido, a Plataforma Nacional de Unidade (NUP), foram raptados ou expulsos das assembleias de voto”.
Diversos atrasos, que chegaram a ultrapassar quatro horas, foram atribuídos a falhas nos equipamentos biométricos utilizados para a verificação da identidade dos eleitores. Alguns observadores associam estes problemas ao corte da rede de comunicações, bem como à escassez de material eleitoral e à chegada tardia de equipamentos em várias assembleias de voto. Em consequência, vários locais encerraram mais tarde do que o previsto.
A Comissão Eleitoral esclareceu que todos os cidadãos que se encontravam na fila até às 17h00 (hora local) puderam exercer o seu direito de voto. Ainda durante a manhã, a entidade pediu desculpa pelos “problemas técnicos” e garantiu que equipas estavam a trabalhar para resolver as falhas registadas.
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Teste GratuitoNa corrida presidencial, o atual chefe de Estado, Yoweri Museveni, de 81 anos, no poder desde 1986, procura garantir um sétimo mandato consecutivo, enfrentando o desafio de Bobi Wine, cantor popular e líder político de 43 anos. Segundo a Comissão Eleitoral, os resultados oficiais da eleição presidencial deverão ser anunciados até às 16h00 de sábado.
Apesar dos constrangimentos, a votação terminou por volta das 18h00 em várias assembleias da capital, Kampala, visitadas pela BBC. Ainda não foram divulgados dados oficiais sobre a taxa de participação, mas relatos no terreno indicam que alguns eleitores poderão ter desistido devido aos atrasos. Outros, porém, mostraram-se determinados em votar, embora manifestassem forte frustração.
“Estou zangado porque ainda não votei. Deveríamos ter começado às sete, mas até agora nada. Os boletins nem sequer chegaram”, afirmou Kaweesi Ismail, eleitor em Kampala, à BBC.
Face às falhas nos sistemas biométricos, o presidente da Comissão Eleitoral, Simon Byabakama, autorizou a utilização do registo nacional de eleitores como alternativa. Os problemas afetaram tanto zonas consideradas pró-governamentais como áreas tradicionalmente associadas à oposição.
Ao votar na sua aldeia natal de Rwakitura, na região ocidental de Mbarara, o próprio presidente Museveni reconheceu dificuldades técnicas. “Coloquei a impressão digital na máquina, mas não foi aceite. No entanto, o reconhecimento facial funcionou imediatamente”, declarou. Questionado sobre a aceitação dos resultados eleitorais, Museveni afirmou que seria necessário apurar se os problemas foram “deliberados”.
A eleição é vista como uma disputa essencialmente entre Museveni e Wine, embora outros seis candidatos presidenciais também figurem nos boletins. Analistas consideram provável a vitória do presidente em exercício, que venceu as seis eleições anteriores, prolongando assim o seu longo mandato.
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Teste GratuitoDurante a campanha, Wine prometeu combater a corrupção e implementar reformas profundas, enquanto Museveni defendeu ser o principal garante da estabilidade e do progresso do país. O período eleitoral foi, contudo, marcado por restrições às atividades da oposição, com denúncias de agressões e detenções de apoiantes de Wine por parte das forças de segurança.
A polícia rejeitou estas acusações, alegando comportamentos disruptivos por parte de militantes da NUP. Paralelamente, o apagão da internet, imposto pelas autoridades, foi justificado como uma medida para evitar desinformação, fraude e incitação à violência, mas foi duramente criticado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que classificou a decisão como “profundamente preocupante”.
Em resposta, a NUP lançou uma aplicação offline de monitorização eleitoral, denominada Bitchat, que utiliza tecnologia Bluetooth para partilhar imagens dos resultados e dados de votação sem acesso à internet.
Além da eleição presidencial, os ugandeses elegeram um novo Parlamento, com 353 assentos em disputa. Para muitos eleitores, a situação económica foi o tema central do voto. Apesar do crescimento gradual do rendimento médio, o país enfrenta desemprego juvenil elevado, fragilidades na infraestrutura, bem como desigualdades no acesso à educação e aos cuidados de saúde.
Organizações como a Amnistia Internacional denunciaram um aumento da repressão durante a campanha, incluindo o uso de gás lacrimogéneo, spray de pimenta e violência física contra apoiantes da oposição. O próprio presidente da Comissão Eleitoral revelou ter recebido ameaças, advertindo-o contra a divulgação de determinados resultados.




