Os países do Sahel africano — Mali, Burkina Faso e Níger — estão a redefinir as suas relações internacionais, afirmando uma linha política centrada na soberania nacional, na segurança interna e na rejeição de interferências externas, num contexto marcado por insurgências jihadistas persistentes e por profundas fragilidades económicas e sociais.
A recente visita anunciada de Nick Checker, alto responsável do Departamento de Estado norte-americano para África, a Bamako, foi interpretada na região como um reconhecimento tardio da legitimidade política dos atuais governos militares. Washington declarou respeitar a soberania do Mali e manifestou abertura para cooperar também com Burkina Faso e Níger, três países que nos últimos anos romperam com parcerias militares tradicionais, nomeadamente com a França, antiga potência colonial.
Para as autoridades sahelianas, esta mudança confirma uma realidade já assumida no terreno: a prioridade absoluta é a sobrevivência do Estado e a proteção das populações, num território que se tornou, segundo vários analistas africanos, o principal palco da violência armada no continente. A ausência de referências à democracia e aos direitos humanos nos comunicados norte-americanos foi vista não como um abandono de valores, mas como o reconhecimento de que modelos políticos importados falharam em garantir segurança e estabilidade.
No Burkina Faso, o capitão Ibrahim Traoré tornou-se uma figura central deste novo discurso africano. Apresentando-se como defensor da luta contra o neocolonialismo e o imperialismo, Traoré conquistou amplo apoio popular, sobretudo entre os jovens, através de uma narrativa que associa independência política, controlo dos recursos e dignidade nacional. Esta retórica ecoa igualmente em Bamako e Niamey, onde os governos militares reforçam a cooperação regional no âmbito da Aliança dos Estados do Sahel (AES).
A criação da AES, após a saída dos três países da CEDEAO, marcou um ponto de viragem. Para os seus dirigentes, a organização regional falhou ao impor sanções e calendários eleitorais, sem oferecer respostas eficazes à expansão dos grupos jihadistas. Hoje, Mali, Burkina Faso e Níger apostam numa cooperação militar africana, baseada em interesses comuns e numa leitura própria das ameaças à segurança.
A questão dos recursos naturais estratégicos é central nesta nova abordagem. O Sahel é rico em ouro, lítio e urânio, matérias-primas essenciais para a economia global. No Níger, a decisão de retirar o controlo da principal mina de urânio à empresa francesa Orano foi apresentada como um ato de recuperação da soberania económica, abrindo espaço a novas parcerias, incluindo com a Rússia.
Do ponto de vista africano, a presença russa não é encarada de forma homogénea. Para muitos líderes do Sahel, trata-se de uma alternativa pragmática num momento em que os parceiros ocidentais reduziram o apoio ou condicionaram a cooperação a reformas políticas consideradas irrealistas em contexto de guerra. Ainda assim, organizações civis locais alertam para abusos cometidos por forças estrangeiras, sublinhando a necessidade de maior controlo e responsabilização.
Os Estados Unidos, ao ajustarem a sua política, parecem reconhecer que não podem ignorar esta nova dinâmica africana. O apoio anunciado passa sobretudo por partilha de informação, formação e assistência técnica, sem regresso massivo de tropas estrangeiras. Para os governos do Sahel, este modelo é aceitável desde que não comprometa a autonomia de decisão.
Enquanto isso, os países vizinhos — como Benim, Gana, Togo, Nigéria e Costa do Marfim — enfrentam o risco crescente de infiltração jihadista, reforçando a perceção de que a segurança do Sahel é um problema africano com impacto continental.
Para muitos observadores africanos, a lição é clara: sem resolver as causas profundas da instabilidade — pobreza extrema, marginalização rural, falta de serviços básicos e exclusão juvenil — nenhuma estratégia militar será suficiente. O desafio do Sahel exige não apenas armas e alianças, mas um novo pacto político e económico liderado pelos próprios africanos.





