Uma investigação do coletivo de análise em fontes abertas All Eyes On Wagner revela a dimensão de um sistema organizado de recrutamento de africanos enviados para combater ao lado das forças russas na guerra da Ucrânia. Intitulado “O negócio do desespero”, o relatório descreve um mecanismo de aliciamento que combina promessas de mobilidade social, redes informais de migração e coerção direta.
Longe de se limitar a dados estatísticos, o estudo reconstrói trajetórias individuais marcadas por expectativas frustradas e destinos trágicos. Segundo a investigação, muitos africanos foram atraídos para a Rússia com promessas de emprego, regularização migratória ou oportunidades de estudo, antes de serem integrados em unidades militares e enviados para a linha da frente do conflito russo-ucraniano.
O coletivo documenta, de forma inédita, a escala do fenómeno. Uma primeira lista identifica 1.417 cidadãos provenientes de 35 países africanos que assinaram contratos militares com a Rússia desde 2023. Entre os contingentes mais numerosos destacam-se 361 egípcios, 335 camaroneses e 234 ganeses. Os dados incluem nome completo, data de nascimento, número militar e data de alistamento, o que sugere uma estrutura administrativa consolidada.
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Anuncie aqui!Uma segunda base de dados reúne 316 combatentes africanos mortos em combate, detalhando identidade, nacionalidade, unidade militar e duração do serviço antes do falecimento. Entre os mortos registados figuram 94 camaroneses, 55 ganeses e 52 egípcios. A investigação conclui que estas forças foram utilizadas em “ondas de assalto destinadas a saturar as linhas de defesa ucranianas”, refletindo a escassez de efetivos enfrentada pelo exército russo.
O relatório descreve um sistema de recrutamento multifacetado. Redes de intermediação operam através de agências de viagens, contactos locais e antigos recrutas transformados em recrutadores. Em muitos casos, o processo ocorre nas redes sociais, onde anúncios promovem oportunidades de trabalho e residência na Rússia. Influenciadores apresentam o país como espaço de prosperidade e mobilidade social, explorando expectativas de jovens migrantes africanos.
Segundo a investigação, o modelo apoia-se amplamente em ofertas de emprego falsas, promessas de regularização administrativa e rotas de migração irregular. Há também evidências de recrutamento coercivo entre migrantes africanos em situação irregular detidos em território russo. Nesses casos, os indivíduos enfrentariam uma escolha imposta: deportação ou assinatura de contrato militar.
O relatório relata o percurso de Lamin Yatta, cidadão gambiano que chegou à Bielorrússia com visto de estudante em 2023 e planeava entrar na União Europeia. Após se deslocar para a Rússia em busca de trabalho, foi detido e obrigado a assinar um contrato militar. Enviado para a Ucrânia, morreu em agosto de 2024.
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anuncie aqui!A investigação aponta ainda para a possível implicação de estruturas estatais russas, incluindo o Serviço Federal de Segurança da Rússia, na coordenação de certas redes de recrutamento. Para os investigadores, o fenómeno não constitui um episódio isolado, mas sim “uma estratégia deliberada e organizada”.
As repercussões já se fazem sentir em vários países africanos. Na África do Sul, autoridades solicitaram o regresso imediato de cidadãos envolvidos no conflito. No Quénia, o governo classificou os mecanismos de recrutamento como clandestinos e inaceitáveis, encerrando centenas de agências suspeitas de enganar jovens com promessas de emprego na Rússia.
O relatório sugere que a guerra na Ucrânia não apenas redesenhou alianças geopolíticas, mas também criou um mercado transnacional de combatentes vulneráveis, alimentado por desigualdades económicas e rotas migratórias precárias. A presença de africanos no conflito surge, assim, como expressão de dinâmicas globais em que guerra, migração e exploração se entrelaçam.





