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Internacional /África: Desinformação russa na África, como Moscou busca minar EUA e França

Uma investigação revela a persistência das campanhas de propaganda russa em 22 países africanos, com estratégias políticas, econômicas e midiáticas para consolidar influência e enfraquecer potências ocidentais

Mesmo após a aparente dissolução do Grupo Wagner em 2023, com a morte suspeita de seu fundador, Evgueni Prigojine, um levantamento conjunto de jornalistas e pesquisadores revela que a arquitetura de desinformação russa continua atuando em África. Publicada pelo hebdomadário sul-africano The Continent em parceria com o consórcio Forbidden Stories e outros coletivos, a investigação detalha como redes criadas por Wagner se mantiveram ativas em 22 países africanos, espalhando narrativas pró-Rússia e minando a imagem de parceiros ocidentais.

Segundo a pesquisa, 7,2 milhões de dólares (cerca de 6 milhões de euros) foram investidos em campanhas de influência na África e na América Latina somente em 2024. República Centro-Africana, Mali, África do Sul, Níger e Angola receberam prioridade máxima. O objetivo explícito é sabotear a credibilidade dos países ocidentais, questionar o papel da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos na região, e interferir nas operações logísticas do Africom, o comando militar americano para a África.

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A investigação mostra que, embora o Grupo Wagner tenha sido substituído pelo Africa Corps, sua rede de propaganda e influência se manteve operacional. A estratégia de Moscou se manifesta em múltiplos níveis: midiático, político e econômico. Por exemplo, uma manifestação em Bangui diante da embaixada americana em fevereiro de 2024 deu origem a artigos em veículos africanos pagos para reforçar a narrativa pró-russa. Em média, cada mês contempla gastos superiores a 300 mil dólares com a publicação de artigos favoráveis à Rússia. Um jornalista centrafricano relatou ter recebido apenas 50 dólares por artigo para promover posições alinhadas a Moscou e ao antigo Wagner.

No plano econômico, agentes russos participaram da elaboração do novo Código Mineiro do Mali, anunciado em 2023, aumentando a participação do Estado nas minas de 20% para 35%. Estratégias semelhantes foram observadas em outros países: na Namíbia, tentativas de enfraquecer partidos de oposição; no Chade, apoio velado ao presidente Mahamat Déby e descrédito do opositor Succès Masra como representante dos interesses americanos; e na África do Sul, campanhas direcionadas contra a Aliança Democrática, vista como menos favorável à Rússia do que o partido ANC.

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O relatório detalha também cenários de influência direta sobre governos e recursos estratégicos: tentativas de golpes no Senegal, caos na Líbia, e revogação de licenças concedidas à empresa francesa Orano para exploração de urânio em Imouraren, Níger. Um projeto denominado “Confederação da Independência” busca reunir países africanos alinhados à Rússia, consolidando uma “cintura” de regimes favoráveis a Moscou.

Para os analistas, a investigação evidencia que estas campanhas de desinformação são parte de uma estratégia coordenada de longo prazo, cujo objetivo é reduzir a presença americana e francesa na África, ao mesmo tempo em que reforça a influência política, econômica e militar da Federação Russa. As consequências dessa atuação vão desde a manipulação da opinião pública até alterações legislativas e reforço de regimes aliados, configurando uma operação complexa de soft power estratégico.

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