A apreensão de quase 2,5 toneladas de estupefacientes no Aeroporto Internacional de Douala, nos Camarões, e a descoberta de um laboratório industrial de metanfetamina na província sul-africana de Mpumalanga, a centenas de quilómetros de Joanesburgo, ilustram uma realidade cada vez mais evidente: o narcotráfico em África está a diversificar rotas, métodos e centros de produção.
No dia 20 de fevereiro de 2026, o ministro das Finanças dos Camarões, Louis Paul Motazé, anunciou a interceção de 1.057 kg de cocaína provenientes da Alemanha e 1.434 kg de tramadol enviados da Índia e do Sudão do Sul. As seis remessas, que transitavam por companhias aéreas europeias e africanas, estavam falsamente declaradas como “fornecimentos médicos”. Avaliadas em cerca de 90 milhões de dólares, as substâncias teriam colocado em circulação aproximadamente 27 milhões de comprimidos de tramadol no mercado camaroonês.
Poucos meses antes, a 19 de setembro de 2025, a polícia da África do Sul anunciou o desmantelamento de um sofisticado laboratório de metanfetamina numa fazenda em Volksrust, na província de Mpumalanga. A operação, conduzida com apoio da unidade de elite Hawks, levou à apreensão de droga avaliada em cerca de 20 milhões de dólares. Cinco cidadãos norte-americanos foram detidos, enquanto dois suspeitos da África Ocidental continuam foragidos. Segundo o relatório Global State of Harm Reduction 2022, a África do Sul figura entre os maiores mercados consumidores de metanfetamina do mundo, beneficiando — paradoxalmente — da sua posição geográfica estratégica.
Estes dois episódios, separados por milhares de quilómetros, revelam um padrão comum: África já não é apenas território de trânsito, mas também de armazenamento, transformação e consumo. E é aqui que o paralelo com a África Oriental se impõe.
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Anuncie aqui!Enquanto Douala e Joanesburgo expõem o eixo centro-sul, a costa oriental do continente consolidou-se como um dos principais corredores marítimos do tráfico internacional. Portos como o Porto de Mombasa, no Quénia, e o Porto de Dar es Salaam, na Tanzânia, são há anos identificados por agências internacionais como pontos sensíveis no escoamento de heroína proveniente do Afeganistão e do chamado “Rota do Oceano Índico”.
Mais a sul, o Porto de Maputo, em Moçambique, e o Porto de Nacala também assumem importância estratégica crescente. A sua localização privilegiada, aliada ao aumento do comércio regional e à expansão logística, transforma-os em infraestruturas essenciais para a economia — mas também potencialmente vulneráveis a infiltrações criminosas.
Especialistas em segurança marítima sublinham que as redes transnacionais exploram fragilidades institucionais, corrupção localizada e limitações tecnológicas nos sistemas de inspeção portuária. Contentores mal declarados, cargas dissimuladas e uso de empresas-fantasma fazem parte de um esquema cada vez mais sofisticado.
O que a apreensão em Douala e o laboratório em Mpumalanga demonstram é que as rotas já não seguem linhas rígidas. A cocaína sul-americana entra por portos da África Ocidental antes de seguir para a Europa ou Médio Oriente; a heroína asiática atravessa o Índico até à costa oriental; drogas sintéticas são produzidas localmente ou reprocessadas no sul do continente.
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anuncie aqui!A interligação entre aeroportos internacionais e grandes portos marítimos cria uma malha logística que pode ser explorada por organizações criminosas globais. A fragmentação dos controlos fronteiriços e a desigualdade de meios entre países facilitam deslocações rápidas das redes, que adaptam itinerários sempre que uma rota se torna mais arriscada.
No fundo, o continente enfrenta um desafio duplo: proteger infraestruturas vitais ao desenvolvimento económico e, simultaneamente, reforçar mecanismos de cooperação regional contra o crime organizado. As apreensões recorde mostram capacidade de resposta, mas também revelam a dimensão do problema.
Da África Central à Oriental e Austral, os portos e aeroportos tornaram-se não apenas portas de entrada para o comércio legítimo, mas também campos de batalha silenciosos numa guerra transnacional contra o narcotráfico.





