O alastramento do conflito envolvendo o Irã mergulhou o transporte marítimo em uma crise sem precedentes no Golfo. Companhias de seguros começaram a cancelar a cobertura de risco de guerra para embarcações que operam na região, após sucessivos ataques deixarem petroleiros danificados, tripulantes mortos e dezenas de navios encalhados. O resultado imediato foi uma quase paralisação do tráfego no estratégico Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo consumido mundialmente.
Dados de navegação indicam que aproximadamente 150 embarcações, incluindo petroleiros e navios de gás natural liquefeito, lançaram âncora nas águas do Golfo e arredores. O bloqueio informal também afeta cerca de 10% da frota mundial de porta-contêineres, segundo Jeremy Nixon, diretor-executivo da Ocean Network Express (ONE). A interrupção ameaça provocar acúmulo de cargas em portos e centros de transbordo na Europa e na Ásia, ampliando o impacto sobre cadeias globais de suprimento.
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Anuncie aqui!O mercado reagiu com nervosismo. O petróleo Brent chegou a subir até 13%, enquanto os preços do gás natural na Europa também dispararam, refletindo o temor de um fechamento prolongado da rota marítima. O conflito já levou ao desligamento de diversas instalações de petróleo e gás no Oriente Médio, agravando a volatilidade.
Entre os incidentes mais recentes, a Guarda Revolucionária iraniana informou que o petroleiro Athe Nova, de bandeira hondurenha, estava em chamas após ser atingido por dois drones no Estreito de Ormuz. O navio-tanque Stena Imperative, de bandeira americana, sofreu impactos aéreos enquanto estava atracado no Golfo, segundo sua proprietária, a Stena Bulk. Um trabalhador do estaleiro morreu. Outro projétil atingiu o petroleiro MKD VYOM, de bandeira das Ilhas Marshall, matando um tripulante ao largo de Omã. Já o navio Hercules Star, de Gibraltar, que abastece outras embarcações com combustível, foi atingido próximo aos Emirados Árabes Unidos, embora sua tripulação tenha escapado ilesa.
A crescente insegurança levou grandes seguradoras marítimas — entre elas Gard, Skuld, NorthStandard, London P&I Club e American Club — a anunciar o cancelamento das coberturas de risco de guerra a partir de 5 de março. Na prática, as empresas de navegação que desejarem manter operações na região terão de buscar novas apólices a custos muito mais elevados.
Os prêmios de risco de guerra saltaram de cerca de 0,2% para até 1% do valor das embarcações em apenas 48 horas, segundo fontes do setor. Para cada viagem, isso representa centenas de milhares de dólares adicionais em custos. “O mercado enfrenta o que é essencialmente um fechamento de fato do Estreito de Ormuz, impulsionado mais pela percepção de ameaça do que por um bloqueio formal”, avaliou Munro Anderson, especialista em seguros marítimos da Vessel Protect.
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anuncie aqui!A tensão é agravada pela declaração iraniana de que a navegação foi encerrada no corredor marítimo de 34 quilômetros de largura, além da ameaça de disparos contra qualquer navio que tente atravessá-lo. Governos asiáticos e refinarias iniciaram revisões de estoques estratégicos de petróleo, antecipando possíveis rupturas prolongadas.
O impacto ultrapassa o setor energético. O encarecimento do transporte marítimo do Oriente Médio para a Ásia, que já se encontrava no nível mais alto em seis anos, deve aumentar ainda mais à medida que armadores evitam enviar navios para a área. A combinação de riscos militares, custos de seguro e volatilidade nos preços reforça o temor de um choque energético global.
À medida que o Estreito de Ormuz se transforma no epicentro de uma crise geopolítica de grandes proporções, o comércio internacional sente os primeiros sinais de um possível estrangulamento logístico. Mais do que uma rota estratégica, a passagem tornou-se símbolo de uma economia mundial vulnerável às tensões militares e às decisões tomadas à beira do conflito.





