O futebol europeu voltou a confrontar-se com uma das suas crises mais persistentes após o jogo da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Real Madrid, interrompido durante dez minutos em Lisboa depois de Vinícius Júnior denunciar ter sido alvo de insultos racistas por parte do argentino Gianluca Prestianni. O incidente ocorreu logo após o avançado brasileiro marcar o único golo da partida, disputada no Estádio da Luz.
Segundo o jogador madrileno, o adversário teria repetido um insulto racial durante o momento de celebração. Prestianni negou categoricamente as acusações, afirmando que o brasileiro interpretou mal o que ouviu. Ainda assim, a UEFA anunciou a abertura de uma investigação formal e nomeou um inspetor independente para recolher provas. Caso seja considerado culpado, o jogador do Benfica poderá enfrentar uma suspensão até dez jogos, uma sanção prevista no regulamento disciplinar do organismo europeu.
Publicidade_Pagina_Interna_Bloco X3_(300px X 450px)
Anuncie aqui!A interrupção do encontro ocorreu após o árbitro activar o protocolo antirracismo da UEFA, procedimento que envolve a suspensão temporária da partida enquanto se avaliam as circunstâncias. Durante esse período, dirigentes e jogadores de ambas as equipas dialogaram no relvado, num ambiente de tensão visível e incomum para uma noite de Liga dos Campeões.
No centro da polémica está um dos jovens talentos emergentes do futebol sul-americano. Prestianni, de 20 anos, formado no Vélez Sarsfield, estreou-se como profissional em 2022 antes de ser transferido para o Benfica por cerca de 11 milhões de euros. Após um período de adaptação na equipa B, afirmou-se progressivamente no plantel principal e tornou-se titular regular na presente temporada. Internacional argentino desde 2025, o extremo optou por representar a Argentina apesar de também poder actuar por Itália. Nos últimos dias, voltou ainda a circular nas redes sociais um vídeo de 2022 que o mostra envolvido numa altercação num jogo de selecções jovens entre Argentina e Brasil, episódio que reacendeu o escrutínio mediático sobre o seu comportamento competitivo.
O episódio ganhou dimensão internacional após declarações do treinador do Benfica, José Mourinho, que afirmou não saber quem dizia a verdade e sugeriu que a celebração de Vinícius diante da bancada poderia ter provocado reacções hostis. O técnico defendeu que o jogador deveria ter comemorado de forma mais contida, evocando figuras históricas como Pelé e Alfredo Di Stéfano.
As declarações geraram forte contestação. O ex-jogador e comentador Clarence Seedorf classificou a posição como um erro grave, afirmando que nenhuma atitude em campo pode justificar racismo. Também Thierry Henry criticou o discurso do treinador português, defendendo que o foco deveria permanecer exclusivamente na denúncia de discriminação.
No seio do Real Madrid, o apoio ao avançado brasileiro foi imediato. Kylian Mbappé afirmou ter ouvido o insulto repetido várias vezes, enquanto colegas de equipa defenderam sanções exemplares caso a acusação seja confirmada. O piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton manifestou igualmente solidariedade pública ao jogador.
Publicidade
anuncie aqui!Organizações de combate à discriminação sublinharam que questionar a conduta da vítima constitui uma forma de desviar o foco do problema central. A entidade britânica Kick It Out afirmou que priorizar o comportamento do jogador em vez da denúncia equivale a deslegitimar quem sofre discriminação.
O caso reacende um debate mais amplo sobre a persistência do racismo no futebol europeu. Observadores presentes no estádio consideram que o episódio representa mais um capítulo numa sequência de situações semelhantes enfrentadas por Vinícius ao longo da sua carreira em Espanha e nas competições internacionais. O jogador tem-se afirmado como uma das vozes mais visíveis contra a discriminação racial no desporto, defendendo maior firmeza das autoridades e aplicação rigorosa dos regulamentos.
Num contexto em que o futebol procura projectar uma imagem global de inclusão, o incidente em Lisboa evidencia tensões profundas entre discurso institucional e realidade nos estádios. O resultado da investigação da UEFA poderá agora determinar não apenas responsabilidades individuais, mas também a credibilidade das políticas antirracismo no futebol europeu.





