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Desporto/Futebol: ameaças de Trump alimentam apelos ao boicote da Copa do Mundo

Declarações e ações do Presidente dos Estados Unidos reacendem debate político no futebol internacional, enquanto governos e federações divergem sobre a participação no torneio coorganizado por EUA, Canadá e México

Os apelos ao boicote — e até à eventual anulação — do Mundial de Futebol de 2026 começam a ganhar força em vários países, em reação às ameaças e iniciativas do Presidente norte-americano, Donald Trump, nomeadamente a intenção de se apropriar do Groenlândia e a imposição de novas taxas alfandegárias contra Estados europeus que se oponham a essa estratégia. Apesar da crescente pressão internacional, o Ministério francês dos Desportos rejeitou, para já, essa possibilidade.

No início de dezembro, Donald Trump foi distinguido com o Prémio da Paz da FIFA, durante o sorteio oficial do Mundial 2026, realizado em Washington. Na ocasião, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, elogiou o chefe de Estado norte-americano, classificando-o como “o tipo de dirigente que o mundo precisa”, numa referência a acordos de paz promovidos sob a sua administração. A distinção, porém, gerou forte desconforto, tendo em conta a política interna e externa do Presidente republicano.

Poucas semanas depois, a tensão internacional intensificou-se. Entre ameaças comerciais à União Europeia, declarações sobre uma possível anexação do Groenlândia e ações controversas no plano diplomático, cresce o número de vozes que defendem um boicote ao Mundial, que será coorganizado por Estados Unidos, Canadá e México, com 78 dos 104 jogos previstos em solo norte-americano.

Segundo o jornal The Guardian, as possíveis consequências para a competição foram discutidas informalmente numa reunião realizada a 19 de janeiro, em Budapeste, que reuniu cerca de 20 presidentes de federações de futebol. As conversas ocorreram à margem das celebrações do 125.º aniversário da Federação Húngara de Futebol, num contexto em que se admite a necessidade de uma resposta europeia coordenada, caso Washington agrave o confronto político.

Os primeiros apelos públicos surgiram na Alemanha, uma das maiores potências do futebol mundial. O deputado conservador Roderich Kiesewetter afirmou que, caso Trump avance com as suas ameaças relativas ao Groenlândia e desencadeie uma guerra comercial com a União Europeia, será difícil imaginar a participação de países europeus na competição.

Na mesma linha, Jürgen Hardt, também da CDU, classificou uma eventual anulação do torneio como “último recurso para levar o Presidente Trump à razão”. Já o deputado social-democrata Sebastian Roloff defendeu a necessidade de uma resposta unida da Europa, admitindo um abandono coletivo da competição.

Um inquérito realizado pelo instituto Insa, junto de mil cidadãos alemães, revela que 47% dos inquiridos apoiariam um boicote caso os Estados Unidos avancem com a anexação do Groenlândia, enquanto 35% se manifestam contra essa medida.

O Governo alemão esclareceu que qualquer decisão caberá exclusivamente à Federação Alemã de Futebol (DFB) e à FIFA, sublinhando que o executivo respeitará a autonomia das entidades desportivas.

Nos Países Baixos, o apresentador de televisão Teun van de Keuken lançou uma petição a favor do boicote, que já reuniu mais de 100 mil assinaturas. O texto denuncia aquilo que classifica como um apoio implícito às políticas agressivas de Trump, incluindo a sua postura em relação aos migrantes e as ameaças militares contra países aliados.

Em França, embora algumas personalidades tenham levantado a possibilidade de boicote, o Governo mantém uma posição cautelosa. O antigo selecionador Claude Le Roy questionou publicamente a participação no torneio, citando o impacto das decisões norte-americanas sobre África. Já o deputado Éric Coquerel, da esquerda radical, defendeu que a competição deveria realizar-se apenas no México e no Canadá.

Apesar dessas posições, a ministra francesa dos Desportos, Marina Ferrari, afirmou que “não existe, neste momento, qualquer vontade de boicote” por parte do Governo francês, defendendo a separação entre desporto e política e sublinhando a importância simbólica do Mundial para os adeptos.

O debate é agravado pelas restrições de vistos anunciadas recentemente pelos Estados Unidos. Adeptos africanos temem não conseguir deslocar-se para assistir aos jogos. Embora o Departamento de Estado norte-americano tenha esclarecido que as medidas dizem respeito apenas a vistos de imigração, foi confirmada a imposição de cauções que podem chegar aos 15 mil dólares para cidadãos de alguns países africanos.

Tal como aconteceu em 2022, no Qatar, o Mundial volta a ser alvo de críticas políticas e éticas. A proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump levanta dúvidas no seio do futebol internacional. Segundo o jornal The Independent, dirigentes acreditam que a FIFA espera que a crise se dissipe, mas alertam que qualquer incidente grave poderá transformar o Mundial de 2026 na maior crise da história da organização — colocando em risco aquele que deveria ser o torneio mais lucrativo de sempre.

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