À primeira vista, trata-se de um simples produto industrial, indispensável para a indústria automóvel, aeronáutica e de embalagens. Mas uma investigação do The Irish Times, em parceria com o consórcio OCCRP (Organized Crime and Corruption Reporting Project), The Guardian, o veículo russo Vajnye Istorii, o projeto ucraniano KibOrg, o jornal belga De Tijd e o site estoniano Delfi, revela que a alumina refinada em Aughinish, oeste da Irlanda, é exportada para a Rússia, transformada em alumínio e destinada a fabricantes de armamento do complexo militar-industrial russo.
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Teste GratuitoA refinaria de Aughinish pertence ao gigante russo Rusal, fundado pelo oligarca Oleg Deripaska. A bauxita, extraída em Guiné e Brasil, é transformada em alumina, um intermediário essencial para a produção de alumínio. Grande parte desta produção é enviada para as fundições de Krasnoïarsk e Saïanogrosk, na Sibéria, e, conforme dados do OCCRP, parte do alumínio chega à empresa moscovita ASK, que o revende a cerca de quarenta fabricantes russos de armas sob sanções da UE.
Segundo Vajnye Istorii, entre 2022 e 2024, mais de um terço das receitas da ASK provém de contratos ligados à indústria de defesa, incluindo fabricantes de mísseis balísticos Iskander-M, mísseis de cruzeiro Kh-101 e equipamentos para tanques utilizados na guerra na Ucrânia.
Segundo Vajnye Istorii, entre 2022 e 2024, mais de um terço das receitas da ASK provém de contratos ligados à indústria de defesa, incluindo fabricantes de mísseis balísticos Iskander-M, mísseis de cruzeiro Kh-101 e equipamentos para tanques utilizados na guerra na Ucrânia.
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Anuncie aqui!Para reconstruir o circuito, os jornalistas cruzaram documentos confidenciais, dados alfandegários, registros de transporte, imagens de satélite e relatórios financeiros. A análise revela que as importações russas de alumina irlandesa mais que dobraram entre 2020 e 2024, passando de 394.430 para 826.584 toneladas. O valor das exportações da Irlanda para a Rússia atingiu 376 milhões de dólares em 2024, ante 243 milhões dois anos antes, tornando a Rússia o maior cliente da refinaria, com 68% da atividade em 2025, contra 23% em 2020.
Apesar da evidência do fluxo de alumina para fins militares, a União Europeia não impõe restrições às exportações para a Rússia. Em fevereiro de 2025, Bruxelas proibiu as importações de alumina russa para “não financiar a guerra”, mas o mesmo não se aplica ao sentido inverso. A empresa Aughinish Alumina sustenta que o produto não é classificado como bem de duplo uso pela UE e que serve essencialmente a atividades civis legítimas.
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Anuncie aqui!Dublin defende a refinaria, que cobre 30% das necessidades europeias em alumina e emprega 900 pessoas, sendo estratégica para a economia local. Em 2022, o primeiro-ministro Micheál Martin destacou a sua “importância estratégica para a Europa”, e o ministro Patrick O’Donovan afirmou que a companhia não tem qualquer ligação com a máquina de guerra russa. Até ao momento, nada indica que a alumina de Aughinish seja incluída no vigésimo pacote de sanções europeias em discussão.




