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Chuvas intensas voltam a inundar bairros de Maputo

Previsões meteorológicas apontam para precipitação moderada a forte em várias províncias, enquanto moradores da capital enfrentam casas alagadas e pedem soluções estruturais para um problema que se repete todos os anos.

A previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) indica que esta sexta-feira, 13 de março, será marcada pela continuação de chuvas moderadas, entre 30 e 50 milímetros em 24 horas, podendo ultrapassar os 50 milímetros em alguns pontos, acompanhadas ocasionalmente por trovoadas e rajadas de vento. O fenómeno deverá atingir uma vasta faixa do território moçambicano, incluindo as províncias de Maputo, Gaza, Inhambane, Sofala, Manica, Zambézia, Nampula e Cabo Delgado.

Na capital, onde o céu carregado tem sido presença constante desde o final da tarde de quarta-feira, a precipitação voltou a provocar inundações em bairros periféricos, reabrindo feridas antigas ligadas ao sistema de drenagem e ao crescimento urbano desordenado. Em zonas como Magoanine e Zimpeto, moradores tentam salvar os seus bens enquanto a água invade quintais, ruas e, em muitos casos, o interior das habitações.

As temperaturas previstas para as principais cidades do país mantêm-se relativamente amenas para a época chuvosa. Em Maputo, os termómetros deverão oscilar entre 21°C de mínima e 27°C de máxima. Em Xai-Xai, a previsão aponta para 23°C e 26°C, enquanto Inhambane poderá atingir 30°C. Vilankulo deverá registar máximas de 29°C, Beira cerca de 30°C, e Chimoio permanece mais fresca, com valores entre 18°C e 25°C. No norte, Nampula e Pemba terão temperaturas próximas dos 27°C a 28°C, enquanto Lichinga poderá registar mínimas de 20°C.

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Nos bairros mais vulneráveis da capital, porém, os números meteorológicos traduzem-se em dificuldades concretas. Em Magoanine, um dos bairros mais afetados, moradores relatam que as chuvas da noite anterior elevaram rapidamente o nível da água. Casas ficaram parcialmente submersas e famílias tiveram de retirar móveis e eletrodomésticos para evitar perdas.

“Não sabemos o que pensar. Durante a noite choveu muito e agora não sabemos com que intensidade a chuva vai voltar. Se continuar assim, a água vai invadir a casa”, lamenta um morador do bairro.

No Magoanine “A”, um quarteirão inteiro permanece alagado. Algumas famílias já abandonaram as suas casas, enquanto outras resistem por não terem para onde ir. Parte dos deslocados instalou-se temporariamente em escolas da região, numa solução improvisada que se repete a cada época chuvosa.

Segundo os residentes, o Conselho Municipal de Maputo chegou a instalar uma bomba para retirar a água acumulada, mas o equipamento revelou-se insuficiente diante da dimensão do problema. “A bomba não aguenta. Aquilo é uma bomba usada para machambas, não é industrial. Trabalha algumas horas e depois dizem que está avariada”, afirma Ernesto Rodrigues, morador do bairro.

Situação semelhante verifica-se no quarteirão 11 do bairro Zimpeto, onde o medo das cheias se tornou parte da rotina dos moradores. Depois das chuvas torrenciais de janeiro, muitos acreditaram que o problema começava a dissipar-se, mas as novas precipitações voltaram a transformar ruas em autênticos canais de água.

Algumas famílias optaram por abandonar as suas casas, deixando apenas um ou outro membro para guardar os pertences e evitar vandalismo. “Quando saímos, entram pessoas e roubam o que encontram. É um prejuízo enorme para nós”, denuncia Elsa Chilaule, residente da zona.

Moradores contam que chegaram a organizar uma solução alternativa, instalando uma bomba cedida por uma empresa próxima, com o objetivo de escoar a água acumulada. O sistema funcionou durante alguns dias, alternando entre períodos de funcionamento e pausa. No entanto, segundo os residentes, a iniciativa acabou por ser interrompida após uma decisão cuja origem permanece pouco clara.

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“Falámos com a empresa, recolhemos assinaturas e a bomba começou a puxar água. Funcionava um dia sim, um dia não. Mas depois disseram que não podíamos mais ligá-la, e o problema voltou”, relata Custódio Julião, outro morador do bairro.

Para os habitantes da periferia da capital, a solução passa por obras estruturais. Muitos defendem a construção de valas de drenagem semelhantes às existentes no centro da cidade, capazes de canalizar a água da chuva até ao rio Mulauzi.

“Quem está no poder precisa olhar também para estas zonas mais afastadas. Não podemos viver apenas esperando o sol. A chuva vai voltar todos os anos”, afirma Victor, morador do Zimpeto.

Enquanto as soluções definitivas não chegam, a situação continua a complicar a mobilidade urbana. Nas zonas mais baixas da cidade, várias estradas permanecem parcialmente submersas, com veículos imobilizados, lama acumulada e peões tentando atravessar lençóis de água. Automóveis de menor porte evitam circular nesses locais, temendo danos mecânicos.

Os efeitos das chuvas estendem-se também aos subúrbios, onde o transporte público enfrenta dificuldades para chegar ao centro da capital. O mau tempo já havia provocado, no último sábado, inundações generalizadas na baixa de Maputo, além da queda de árvores e de estruturas publicitárias que bloquearam várias vias.

Nos últimos dias, o INAM tem emitido sucessivos alertas para chuvas intensas e ventos fortes, sobretudo na região sul do país.

O contexto insere-se num quadro mais amplo. Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis às alterações climáticas, enfrentando regularmente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre entre outubro e abril.

Na Assembleia da República, em Maputo, a primeira-ministra Maria Benvinda Levi alertou que “os eventos climáticos extremos são cada vez mais intensos e cíclicos” no país. Segundo a governante, o Executivo pretende reforçar o sistema de aviso prévio, melhorar a capacidade de resposta a desastres naturais e expandir o mapeamento das zonas de risco.

Entre as medidas previstas estão o reassentamento de populações em áreas seguras, a construção de infraestruturas resilientes às mudanças climáticas e o reforço de obras como barragens, represas, diques e sistemas de drenagem para uma gestão mais eficiente dos recursos hídricos.

“A implementação destas ações permitirá evitar que os poucos recursos disponíveis sejam constantemente utilizados para reconstruir infraestruturas destruídas por desastres naturais”, explicou Levi, acrescentando que o objetivo é direcionar esses fundos para novos projetos de desenvolvimento económico e social.

Os dados mais recentes mostram a dimensão do problema. Nas últimas 24 horas, as chuvas inundaram 518 habitações no distrito de Manjacaze, na província de Gaza, além de provocar danos em escolas e centros de saúde e destruir 2.732 hectares de culturas agrícolas. Cinco postos administrativos ficaram isolados.

Na província de Inhambane, pelo menos 71 casas foram inundadas e 306 hectares de culturas afetados, enquanto várias pontes e estradas se tornaram intransitáveis.

Equipas multissetoriais já foram mobilizadas para prestar assistência humanitária e avaliar os danos. O governo tem reiterado o apelo para que as populações que vivem em zonas propensas a cheias sigam as orientações das autoridades, de forma a evitar perdas humanas e materiais.

Desde o início da atual época chuvosa, em outubro, o número de mortos em Moçambique já atingiu 270, com quase 870 mil pessoas afetadas, segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD). Apenas as cheias de janeiro provocaram 43 mortos, 147 feridos e nove desaparecidos, afetando mais de 724 mil pessoas em todo o país.

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