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Chapo apela à protecção do legado da “geração de ouro” da música moçambicana

O Presidente defendeu em Maputo que o Estado deve assumir papel activo na salvaguarda da herança musical do país para garantir memória e continuidade cultural.

O Presidente da República, Daniel Chapo, lançou um apelo público em Maputo para que a preservação da música e das artes moçambicanas seja tratada como uma responsabilidade do Estado. Na ocasião, que reuniu figuras do sector cultural e representantes institucionais, Chapo sublinhou a necessidade de medidas concretas que garantam a conservação do trabalho de músicos considerados da chamada “geração de ouro”.

O apelo do chefe de Estado ganha relevância num contexto em que muitos protagonistas dessa era estão em idade avançada e formatos físicos — gravações em fita, fotografias, manuscritos e discos antigos — correm o risco de se perder se não forem inventariados e tratados. Para Chapo, assegurar esse legado não é apenas um gesto simbólico, mas uma intervenção política necessária para proteger a identidade e a memória colectiva.

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A expressão “geração de ouro” é habitualmente usada para designar músicos e criadores que marcaram etapas decisivas na construção do imaginário sonoro do país, sobretudo nas décadas que seguiram a independência. Estes artistas não só produziram obras de valor artístico como também contribuíram para narrativas sociais e políticas que moldaram o país. Preservar esse acervo significa manter viva uma parte importante da história cultural moçambicana.

A proposta do Presidente abre a discussão sobre que instrumentos práticos devem ser adoptados pelo Estado. Entre as opções que especialistas na área cultural costumam apontar estão a criação de um inventário nacional de gravações e partitura, projectos de restauração física, digitalização do material sonoro e bibliográfico, e o apoio a iniciativas de difusão que ponham esse repertório ao alcance das novas gerações. Qualquer estratégia exigirá também quadro jurídico que proteja direitos de autor e o acesso público responsável.

Para que tais medidas sejam eficazes, é necessário mobilizar recursos humanos e financeiros, tanto no sector público como em parcerias com universidades, centros culturais e entidades privadas. A formação de conservadores, técnicos de arquivo e engenheiros de som capazes de tratar suportes antigos é uma lacuna frequente e um custo a considerar. Além disso, o registo e localização de acervos dispersos — guardados por famílias, rádios locais ou coleccionadores — é tarefa preliminar indispensável.

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A salvaguarda do património musical tem também potencial para gerar benefícios económicos e sociais. Concertos comemorativos, rotas culturais e programas educativos podem valorizar o repertório tradicional e moderno, criando oportunidades para músicos jovens e incentivando turismos culturais. Ao mesmo tempo, colocar esse património em circulação pública contribui para a inclusão e reforça laços intergeracionais, permitindo que histórias e memórias sejam transmitidas.

A digitalização e disponibilização em plataformas, no entanto, trazem desafios relacionados com direitos de autor, remuneração e controlo sobre como o material é usado. A tutela pública terá que conciliar abertura de acesso com mecanismos que garantam justiça para os titulares de direitos e para as famílias dos artistas. A construção de políticas públicas equilibradas exige diálogo com intervenientes — músicos, produtores, operadores de rádio e investigadores.

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Para avançar, a iniciativa proposta pelo Presidente aponta para a criação de programas de mentoria e residências artísticas que promovam a transmissão directa entre músicos veteranos e jovens intérpretes. Estas acções, além de preservar repertórios, permitem renovar formas de interpretação e garantir que práticas menos documentadas — técnicas instrumentais, arranjos orais e letras em línguas locais — não desapareçam com a passagem de tempo.

Uma abordagem integrada deve também contemplar registos orais: entrevistas com compositores, instrumentistas e familiares que contextualizem as obras e as condições de criação. Esses testemunhos são fontes únicas de interpretação e esclarecem processos de autoria e colaboração que nem sempre aparecem em documentos formais. Tornar esse material acessível enriquece pesquisa académica e iniciativas educativas.

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A cooperação internacional pode acelerar processos técnicos, mas a liderança e a prioridade são locais. Parcerias com instituições arquivísticas estrangeiras, programas de capacitação e financiamento internacional são úteis, mas qualquer projecto de salvaguarda tem de respeitar autonomias culturais e modelos de gestão compatíveis com a realidade moçambicana. O Estado, segundo o Presidente, deve garantir coordenação, financiamento e enquadramento legal para que a acção seja sustentável.

A execução deste tipo de política enfrenta obstáculos práticos: limitações orçamentais, concorrência por prioridades sociais urgentes e a necessidade de competências técnicas específicas. Por isso, propostas pragmáticas — como piloto em províncias ou a selecção de colecções prioritárias para intervenção imediata — podem demonstrar impacto rápido e construir suporte político e social para programas mais ambiciosos.

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Além de iniciativas estatais, é crucial reconhecer o papel das rádios comunitárias, de produtores independentes e de arquivos privados na preservação de memórias musicais. Políticas públicas eficazes são as que conhecem e incorporam estas realidades dispersas, criando incentivos para que detentores privados confiem acervos a instituições públicas ou recebam apoio técnico para a sua conservação in situ.

Um passo operacional imediato é a criação de um registo nacional de obras e intérpretes, com metadados mínimos que permitam a identificação e localização de materiais. Esse registo facilitaria o planeamento de intervenções, a atribuição de recursos e o estabelecimento de redes de cooperação entre bibliotecas, museus e instituições de ensino. A transparência e acesso público controlado são factores que fortalecem a utilidade desse inventário.

Documentos privados, discos de vinil, fitas magnéticas e gravações caseiras são urgentes em termos de conservação: muitos suportes físicos já mostram sinais de degradação irreversível. A priorização técnica deve recair sobre itens em risco de perda imediata, combinando recuperação física com cópias digitais de alta qualidade e backups seguros. A longo prazo, políticas de preservação preventiva e espaços adequados de arquivo reduzirão custos e perdas futuras.

O apelo do Presidente Daniel Chapo constitui um ponto de partida político que pode catalisar a mobilização de recursos e vontades. Ainda assim, a transformação desse apelo em políticas concretas exigirá planos detalhados, orçamentos, calendários e avaliação independente. A música da “geração de ouro”, mais do que património, é património vivo que só se mantém relevante se for ouvido, estudado e praticado pelas novas gerações.

A responsabilidade pela preservação é colectiva: Estado, sociedade civil, meios de comunicação, instituições culturais e cidadãos partilham um papel. Preservar o legado musical não é apenas arquivar o passado; é investir numa matriz cultural que enriquece a educação, o turismo e a vida cívica do país. A acção urgente hoje será a garantia de que a memória sonora de Moçambique continue a inspirar o futuro.

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