Os cancros gastrointestinais, que afetam órgãos do sistema digestivo como o estômago, o cólon, o fígado, o pâncreas e o esófago, já figuram entre as doenças mais comuns e mortais do mundo. Uma nova análise internacional alerta, no entanto, que o peso destas patologias poderá crescer drasticamente nas próximas décadas, sobretudo em países em desenvolvimento.
O estudo, conduzido por investigadores do Cedars-Sinai Medical Center e publicado na revista científica Cancer, traça uma projeção global até 2050. A conclusão é clara: sem mudanças significativas nas políticas de saúde e nos hábitos de vida, o número de casos e de mortes associadas aos cancros digestivos poderá aumentar a um ritmo capaz de pressionar seriamente os sistemas de saúde.
Os investigadores analisaram dados provenientes de 185 países, recorrendo a bases de registo internacional de casos de cancro. Esses dados foram combinados com projeções demográficas — incluindo o crescimento da população, o envelhecimento e a distribuição geográfica — para estimar o impacto futuro destas doenças.
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Anuncie aqui!As conclusões são preocupantes. Até 2050, os especialistas estimam que os novos casos de cancros gastrointestinais aumentem cerca de 85%, enquanto as mortes associadas a estas doenças poderão crescer cerca de 93%. As regiões com menos recursos são as mais vulneráveis. Em África, por exemplo, o aumento projetado pode atingir 157%, refletindo tanto o crescimento populacional como as limitações nos programas de rastreio e tratamento.
Entre os vários tipos de cancros digestivos, dois destacam-se pela velocidade com que podem crescer nas próximas décadas. O cancro do pâncreas deverá registar o maior aumento no número de diagnósticos, com uma subida estimada de 95%. Já o cancro colorretal poderá tornar-se o mais letal, com um aumento previsto de 103% nas mortes.
Uma das razões para esta tendência é o facto de muitas destas doenças serem diagnosticadas tarde. Segundo o cirurgião Alessio Pigazzi, citado no comunicado do estudo, “um diagnóstico tardio torna o cancro colorretal extremamente mortal, enquanto a deteção precoce permite taxas de cura muito elevadas”. O especialista lembra que, quando identificado nos estágios iniciais, este tipo de cancro pode ser tratado com sucesso na grande maioria dos casos.
A situação do cancro do pâncreas é ainda mais complexa. Trata-se de um dos tumores com prognóstico mais difícil, em parte porque os sintomas costumam surgir apenas em fases avançadas da doença. Apesar disso, há sinais encorajadores vindos da investigação científica. De acordo com o oncologista Arsen Osipov, os progressos recentes no rastreio precoce — como biópsias líquidas realizadas através de análises de sangue — e os programas de monitorização para pessoas com risco genético elevado podem ajudar a melhorar o diagnóstico e o tratamento no futuro.
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Anuncie aqui!Outro fator determinante é a transformação dos estilos de vida. O envelhecimento da população mundial, o aumento da obesidade, o sedentarismo e o consumo crescente de alimentos altamente processados contribuem para o aumento do risco de vários tipos de cancro digestivo. Estes fenómenos são particularmente visíveis em países em desenvolvimento, onde mudanças rápidas nos hábitos alimentares e urbanos têm alterado o perfil de saúde das populações.
Para o hepatologista Ju Dong Yang, coautor do estudo, a resposta deve passar por ações coordenadas em larga escala. “É fundamental promover mudanças de estilo de vida e desenvolver programas de rastreio acessíveis”, sublinha o especialista.
Para países africanos, incluindo Moçambique, a prevenção poderá desempenhar um papel decisivo. Muitos destes cancros podem ser evitados ou tratados com maior eficácia quando identificados precocemente. A adoção de hábitos simples — como uma alimentação rica em fibras, prática regular de exercício físico e redução do consumo de álcool e tabaco — pode reduzir significativamente o risco.
O rastreio também é essencial. No caso do cancro colorretal, testes simples permitem detetar sinais precoces da doença antes mesmo do aparecimento de sintomas. Quando diagnosticado cedo, o prognóstico melhora de forma significativa.
Já o cancro do pâncreas continua a ser mais difícil de identificar precocemente. Sintomas como fadiga persistente, perda de peso inexplicada ou icterícia — coloração amarelada da pele e dos olhos — podem indicar a necessidade de avaliação médica. Pessoas com histórico familiar da doença devem estar particularmente atentas e procurar aconselhamento médico para acompanhamento adequado.
Perante estas projeções, os especialistas defendem que o combate aos cancros gastrointestinais exigirá um esforço global que combine prevenção, diagnóstico precoce e acesso a tratamentos eficazes. Sem essas medidas, alertam, o crescimento destas doenças poderá transformar-se num dos maiores desafios de saúde pública das próximas décadas.





