No final de setembro arrancam as partidas qualificativas para a edição de 2027 da Taça das Nações Africanas, e a fase preliminar trouxe à tona um problema estrutural persistente no continente: numerosas selecções nacionais não reúnem condições para receber jogos oficiais nos seus próprios estádios. Segundo apurou a reportagem que serviu de base a este texto, as exigências técnicas e de segurança impostas pelas entidades organizadoras têm deixado muitos recintos fora das normas, forçando federações a procurar alternativas noutros países.
A escolha de um estádio homologado não é apenas uma formalidade administrativa; envolve iluminação adequada para transmissão televisiva, relvado em condições, assentos e acessos seguros para espectadores, sistemas de segurança e infraestruturas para árbitros e delegados. Falhas em qualquer destes pontos têm conduzido a decisões que transferem locais de encontro para estádios de países vizinhos ou para centros urbanos que já dispõem de infra-estrutura certificada, muitas vezes a custo elevado para as federações afectadas e com impacto direto sobre a presença de adeptos locais.
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Anuncie aqui!A consequência imediata é dupla: do ponto de vista desportivo, as equipas perdem o habitual “factor casa”, que influencia resultados por via do apoio popular e do conhecimento do relvado; do ponto de vista económico, receitas com bilheteira, comércio local e visibilidade desaparecem para as comunidades que normalmente beneficiariam de um jogo oficial. Além disso, a necessidade de deslocar partidas implica custos adicionais com aluguer de estádios, logística e segurança, encargos que muitas federações terão de financiar sem garantias de retorno.
Por detrás deste cenário estão várias causas repetidas: atrasos em obras de remodelação, orçamentos insuficientes, processos burocráticos de homologação que não acompanham realidades técnicas e, noutros casos, questões de segurança que impedem a realização de jogos em determinados países. A pressão do calendário agrava o problema, porque obras que já deveriam estar concluídas esbarram em prazos apertados e em dificuldades de financiamento, deixando as federações com pouco tempo para alternativas viáveis.
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Anuncie aqui!Além dos impactos financeiros e competitivos, há uma dimensão social importante: torcedores deixam de ver a selecção jogar no seu próprio país, jovens perdem oportunidades de contacto com o futebol de alto nível e as autoridades locais perdem uma plataforma de promoção do desporto e do turismo. Algumas federações ainda procuram converter a adversidade em oportunidade, organizando a deslocação do jogo junto a diásporas que possam deslocar-se ao estrangeiro, mas isso não compensa inteiramente a perda do vínculo comunitário criado por um jogo em casa.
Para as selecções mais pequenas ou com recursos limitados, a situação é particularmente dura. O custo de adaptação de um estádio às normas e o risco de não conseguir a homologação a tempo empurram muitas federações a optar por fórmulas temporárias, como jogar num país vizinho ou alugar infra-estruturas em cidades maiores, mercado que nem sempre é acessível nem aceitável para todas as partes envolvidas, incluindo patrocinadores e órgãos de transmissão televisiva.

As discussões em torno do tema voltam a colocar em cima da mesa a necessidade de um planeamento de longo prazo e de mecanismos de financiamento mais flexíveis. Propostas já circulam em vários fóruns do futebol africano: linhas de crédito conjuntas entre confederações, parcerias público-privadas para obras de modernização e a mobilização de fundos internacionais destinados a infra‑estrutura desportiva. Sem uma articulação eficaz, porém, qualquer injecção pontual de recursos corre o risco de fixar soluções fragmentadas e de curto prazo.
Também se assinala a necessidade de um calendário de homologações mais realista, com prazos claros e apoio técnico às federações que enfrentam lacunas de capacidade técnica. Aceder a consultorias especializadas e a planos de trabalho faseados pode ser determinante para evitar a repetição das deslocações forçadas que já se anunciam nesta fase de apuramento. É, ainda assim, indispensável que parceiros governamentais entendam o impacto económico e social da presença de jogos internacionais em cidades nacionais.
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Anuncie aqui!A corrida aos estádios homologados tem outro efeito colateral: concentra jogos em poucas praças, aumentando a pressão sobre infra-estruturas já saturadas e sobre a capacidade logística desses locais para acomodar equipas e públicos estrangeiros. Isso pode elevar os custos para todas as federações envolvidas e reduzir a visibilidade de regiões que, por vezes, perdem uma rara oportunidade de se mostrar ao continente e ao mundo. As federações e a própria Confederação Africana de Futebol enfrentam, portanto, um desafio de equilíbrio entre exigência técnica e inclusão territorial.
Para federações como as das nações do sul de África, o dilema é bem conhecido: há vontade de reformar e modernizar, mas também limitações orçamentais e prioridades concorrentes em saúde, educação e infra‑estruturas básicas. Mesmo quando existe um plano de melhoria das instalações, a execução é lenta e sujeita a imprevistos que adiam homologações e forçam decisões difíceis sobre onde realizar os jogos oficiais da selecção nacional. A situação evidencia, mais uma vez, a necessidade de cooperação regional que distribua encargos e benefícios.
Em termos desportivos, a ausência de jogos em casa pode distorcer a competitividade das eliminatórias. Equipas preparadas para contar com o apoio das bancadas têm de adaptar tácticas e gerir desgaste logístico acrescido, enquanto adversários beneficiam de um ambiente neutro em que a pressão local é menor. A longo prazo, essa realidade pode fragilizar processos de formação e a ligação entre academia e público, elementos essenciais para o desenvolvimento sustentado do futebol nacional.
Do ponto de vista administrativo, as federações enfrentam escolhas complexas: investir em infra‑estrutura para garantir jogos futuros em casa ou canalizar recursos para preparação imediata da equipa, sabendo que ambas as opções têm custos e riscos. A pressão dos adeptos locais, que exigem troféus e espectáculo, soma‑se à pressão de entidades internacionais que exigem conformidade com padrões profissionais. Encontrar um caminho que concilie expectativas é tarefa que exige transparência financeira e estratégias de curto, médio e longo prazos.
Há ainda um aspecto internacional a considerar: a possibilidade de realojar partidas em terras distantes, em centros com grandes diásporas africanas, tem sido usada como solução temporária, mas levanta questões sobre legitimidade competitiva e sobre o papel do futebol como expressão nacional. Para além disso, decisões tomadas numa lógica de curto prazo podem minar investimentos locais, já que promotores privados e autoridades podem adiar obras se acreditarem que jogos de calendário alto serão novamente deslocados.
No fim, a partida inaugural do apuramento mostrará quantas federações conseguiram homologar estádios a tempo e quantas continuarão a jogar “em casa” fora de casa. A situação sublinha que o futebol africano precisa de mais do que exigências técnicas: requer coordenação financeira, horários compatíveis, apoio institucional e, sobretudo, vontade política dos Estados e dos dirigentes desportivos para transformar jogos em instrumentos de desenvolvimento local. Sem essas medidas concertadas, a visão de jogos de qualificação a decorrerem em praças nacionais ficará comprometida, com prejuízo para o espectáculo e para as comunidades que o futebol pretende unir.


