O cinema biográfico raramente escapa a uma armadilha recorrente: a de querer abarcar uma vida inteira e acabar por se reduzir a uma sucessão de episódios, quase enciclopédicos. Ao optar por um recorte temporal mais restrito, algumas obras conseguem escapar a esse risco. É o caso de Bob Marley: One Love, que prefere concentrar-se num período decisivo da vida do cantor jamaicano, entre 1976 e 1978. Ainda assim, essa escolha implica silêncios — e, por vezes, omissões significativas.
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Teste GratuitoO filme, protagonizado por Kingsley Ben-Adir e Lashana Lynch, centra-se nos anos que sucederam à tentativa de assassinato de Bob Marley, em 1976, passando pelas gravações do álbum Exodus e culminando no histórico concerto One Love Peace Concert, em 1978. A narrativa sugere um momento de reconciliação nacional na Jamaica, ainda que a realidade tenha sido bem mais complexa e longe de qualquer resolução duradoura.
Durante esse período, o artista enfrentou não apenas tensões políticas e pessoais, mas também uma descoberta que mudaria o rumo da sua vida: o diagnóstico de um cancro raro. A produção, coassinada pela família Marley, opta por tratar certos episódios com discrição, deixando de fora aspectos essenciais que ajudam a compreender melhor a trajetória do músico.
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Anuncie aqui!Um dos silêncios mais surpreendentes diz respeito a Trenchtown, o bairro de Kingston onde Marley cresceu e que moldou profundamente a sua identidade artística. Canções como No Woman, No Cry ou Trenchtown Rock não são apenas memórias nostálgicas, mas testemunhos vivos de um espaço que foi berço do reggae. Ali, entre dificuldades e criatividade, nasceram não só os Wailers, mas também outros nomes fundamentais da música jamaicana.
O bairro, cujo nome remonta possivelmente ao antigo proprietário irlandês Daniel Trench, tornou-se um verdadeiro laboratório cultural. Ignorar o seu papel central equivale, de certo modo, a amputar uma parte da própria história do reggae.
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Anuncie aqui!Outro episódio pouco explorado é a passagem de Marley pelos Estados Unidos, mais precisamente em Wilmington, Delaware. Nos anos 1960, trabalhou numa fábrica da Chrysler e também como assistente de laboratório na DuPont. Essa experiência, muitas vezes esquecida, influenciou diretamente algumas das suas composições, como Night Shift.
A estadia nos EUA revela um Marley distante da imagem exclusivamente espiritual ou revolucionária: um jovem imigrante, inserido numa rotina industrial, longe dos palcos e do mito que viria a construir.
PUBLICIDADE
Teste GratuitoA relação com Peter Tosh e Bunny Wailer — figuras centrais na formação dos Wailers — surge apenas de forma marginal. Ambos deixaram o grupo em 1974, seguindo carreiras a solo de grande relevância. A ausência de um desenvolvimento mais profundo dessas relações no filme empobrece a compreensão do percurso coletivo que deu origem ao sucesso de Marley.
Sem eles, a história dos Wailers fica incompleta. É como contar a trajetória de uma banda sem reconhecer os seus pilares fundadores.
A dimensão espiritual de Marley, ligada ao movimento rastafári, está presente, mas de forma simplificada. A figura do imperador etíope Haile Selassie I, venerado como messias pelos rastafáris, é essencial para compreender não apenas a fé do cantor, mas também a sua visão política e cultural.
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Anuncie aqui!Essa espiritualidade influenciava decisões concretas da sua vida, incluindo posicionamentos médicos e pessoais — elementos que o filme apenas sugere, sem aprofundar.
Talvez o ponto mais delicado seja a forma como o filme aborda — ou evita — a doença que levou à morte do artista. Marley foi diagnosticado com melanoma acral lentiginoso, uma forma rara de cancro de pele, após uma lesão no pé que não cicatrizava. A recomendação médica de amputação foi recusada, em parte devido às suas convicções religiosas.
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Anuncie aqui!Embora tenha sido submetido a uma intervenção cirúrgica menos radical, o cancro acabou por se espalhar. Bob Marley morreu em 1981, aos 36 anos, deixando um legado musical e cultural que continua a atravessar gerações.
Hoje, a sua história é frequentemente evocada em campanhas de sensibilização para o diagnóstico precoce do cancro — uma tentativa de transformar uma perda evitável num alerta global.



