Nas noites de quinta-feira, o Black Mamba — espaço que sucede ao histórico Opium — transforma-se num ponto de convergência para quem procura música com densidade artística, curadoria exigente e presença viva em palco. A iniciativa junta Zé Pires e Izidine Faquira num encontro que privilegia o conteúdo, a memória e a qualidade interpretativa, afirmando-se como uma proposta que vai além do entretenimento para assumir contornos de reflexão estética e cultural.

A programação assinala três décadas de transmissões ininterruptas do Izy Jazz, percurso que consolidou um dos mais consistentes espaços de difusão musical. Em palco, Faquira apresenta uma seleção especial de artistas nacionais e internacionais que dialogam com a história do programa, co mpondo uma narrativa sonora que reflete a evolução estética do jazz e das suas margens. A celebração não se limita à evocação do passado; afirma-se como continuidade de um trabalho de formação de escuta e de construção de referências duradouras.
O projeto ganha um eixo simbólico com a homenagem a Stevie Wonder, cuja obra permanece como uma das sínteses mais influentes entre virtuosismo musical e expressão social. A evocação do artista norte-americano evidencia a influência transversal da soul e do rhythm and blues na construção de linguagens contemporâneas, aproximando repertórios e sensibilidades. As interpretações revisitadas não procuram reproduzir modelos, mas propor uma leitura consciente de um legado que redefiniu a relação entre criatividade, mensagem e alcance popular.
No centro da proposta está a visão de Zé Pires, cuja trajetória se distingue pela ênfase na composição e na produção musical. Com formação sólida e atividade consistente na cena nacional, o músico desenvolve um trabalho que articula tradição e experimentação, explorando texturas, arranjos e diálogos entre estilos. A sua abordagem sustenta o conceito “Timelapse Sessions”, concebido como uma travessia musical que percorre épocas e referências com fluidez narrativa, como uma sequência cuidadosamente encadeada em que cada tema convoca o seguinte e prolonga o sentido do anterior.

A experiência em palco assume forma de percurso. O tempo torna-se matéria expressiva: acelera-se na sucessão de obras, condensa-se nas memórias evocadas e permanece intenso no presente da performance. O resultado é um espetáculo concebido ao detalhe, onde qualidade interpretativa, coerência estética e encontro de gerações convergem para redefinir a ideia de concerto.
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anuncie aqui!A estrutura do projeto é assegurada por Stewart Sukuma, que assume a direção de estrutura, garantindo a coordenação artística e organizacional necessária para sustentar a proposta. A sua intervenção não se inscreve na encenação do espetáculo, mas na consolidação institucional e no acompanhamento dos artistas, criando condições para que a experiência em palco alcance plena intensidade expressiva e continuidade programática.
Mais do que um evento, estas quintas-feiras configuram um espaço de escuta e partilha, onde a história da música se torna palpável e o presente se afirma com vigor. A proposta assume uma ambição clara: honrar trajetórias, renovar repertórios e oferecer ao público uma experiência que une memória e descoberta, num ambiente onde a música é simultaneamente herança e criação.




