O ex-presidente senegalês Macky Sall decidiu manter sua candidatura ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas, mesmo sem o endosso oficial da União Africana (UA), anunciando uma disputa que se desenha tanto no plano regional quanto doméstico. A decisão ocorre em um contexto marcado por oposição de cerca de 20 Estados-membros da UA, que inicialmente bloquearam um projeto de decisão favorável a Sall, evidenciando divisões sobre sua viabilidade como candidato africano à liderança da organização global.
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Teste GratuitoNo Senegal, a movimentação de Sall gerou críticas imediatas. As autoridades atuais acusam o ex-presidente de aumentar significativamente a dívida do país e de supervisionar a repressão a protestos políticos que resultaram em pelo menos 65 mortes entre 2021 e 2024. Esta desaprovação doméstica ilustra a tensão entre seu legado político e a percepção popular: o país que outrora o elegeu para liderar agora questiona sua capacidade moral e administrativa para ocupar um posto internacional de prestígio.
Analistas políticos, como Mademba Ndiaye, destacam que a candidatura de Sall deve permanecer contenciosa tanto regional quanto internamente, refletindo o desafio de ex-líderes africanos que, ao deixarem o poder, enfrentam um escrutínio mais severo sobre suas gestões, incluindo dívidas públicas, políticas de segurança e direitos humanos. “A legitimidade interna frequentemente influencia o peso político de um candidato africano no cenário internacional”, observa Ndiaye.
A controvérsia em Addis Ababa ocorreu quando 20 dos 55 membros da UA objetaram o projeto de decisão que apoiava Sall, excedendo o limiar necessário para bloquear o procedimento de “aprovação silenciosa”. Posteriormente, a equipe de Sall contestou os números, alegando que Egito e Libéria retiraram suas objeções, reduzindo o total de opositores para 13, enquanto cinco solicitaram extensão do prazo. Assim, o candidato reafirmou sua intenção de concorrer, mesmo diante da rejeição formal da UA.
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Anuncie aqui!Essa resistência não é apenas regional. O Senegal, de maneira oficial, declarou não ter endossado sua candidatura, refletindo a tensa relação entre Sall e o governo atual liderado por Bassirou Diomaye Faye e Ousmane Sonko. Acusações de má gestão econômica e repressão política delineiam um cenário onde ex-líderes africanos muitas vezes deixam o poder desacompanhados de consenso nacional, enfrentando obstáculos para manter influência ou credibilidade fora de seu país.
No plano internacional, Sall mantém laços estreitos com o Marrocos, país onde reside desde o fim de seu mandato. Durante sua presidência (2012–2024), promoveu relações estratégicas com Rabat, alinhando-se a posições sobre o Saara Ocidental e identificando Marrocos como parceiro econômico prioritário em África. Esse histórico ilustra a prática comum de ex-líderes africanos que, após saírem do poder, se apoiam em redes diplomáticas consolidadas para permanecer relevantes na arena internacional.
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Anuncie aqui!A corrida à liderança da ONU, cujo mandato de António Guterres termina em 2026, inclui candidatos de diversos continentes, como Michelle Bachelet (Chile), Rafael Mariano Grossi (Argentina) e Rebeca Grynspan (Costa Rica). Para assumir o cargo, é necessária a aprovação do Conselho de Segurança, com pelo menos nove votos entre 15 e sem veto dos membros permanentes, seguida de confirmação pela Assembleia Geral. Esta exigência complexa ressalta a necessidade de apoio sólido e credibilidade internacional — elementos que a oposição interna e regional podem comprometer.
O caso de Macky Sall evidencia uma tendência recorrente entre antigos dirigentes africanos: ao deixarem o poder, muitos enfrentam rejeição interna devido a legados controversos, enquanto tentam manter ou ampliar sua influência em fóruns globais. Entre as críticas frequentes estão o aumento da dívida, a repressão política e a gestão de crises sociais. A candidatura de Sall é, assim, ao mesmo tempo uma aposta diplomática e um teste sobre a capacidade de ex-líderes contornarem obstáculos domésticos para assumir papéis de liderança internacional.






