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América do Norte/Eleições: Porto Rico, uma “ilha flutuante de lixo” que pode abalar a corrida para a Casa Branca

Durante o comício de Donald Trump no Madison Square Garden em Nova York, uma piada racista do humorista Tony Hinchcliffe sobre Porto Rico desviou a atenção da campanha do bilionário republicano. O incidente, amplamente criticado por Kamala Harris, pode ter implicações nos resultados da eleição presidencial dos EUA, especialmente com o referendo sobre o status da ilha marcado para o dia 5 de novembro.

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No evento, realizado no domingo, 27 de outubro, Trump esperava impressionar o público, mas a atenção rapidamente se voltou para Hinchcliffe, que, ao tentar animar a plateia, comparou Porto Rico, um território americano, a “uma ilha flutuante de lixo no meio do oceano”. As palavras provocaram risos, mas também um desconforto palpável entre os presentes. A equipe de Trump agiu rapidamente, afirmando em comunicado que “essa piada não reflete as opiniões do presidente Trump ou de sua campanha”.

Porto Rico, antiga colônia espanhola, tornou-se um território dos Estados Unidos no final do século XIX e adquiriu o status de “Estado Livre Associado” nos anos 1950. Allan Potofsky, professor de História e Civilização Americana na Universidade Paris Cité, explica: “Os portorriquenhos são cidadãos americanos, mas a ilha em si não pode participar das eleições presidenciais. É um território americano, não exatamente um estado, nem totalmente independente.”

Embora os residentes da ilha não possam votar nas eleições presidenciais, os 5,8 milhões de portorriquenhos que vivem no continente têm direito de voto, e sua influência cresceu desde a migração em massa provocada pelo furacão Maria. Desde 2017, quase 200 mil portorriquenhos migraram para os Estados Unidos continentais, e suas vozes são especialmente influentes em estados-chave.

“Existem milhões de portorriquenhos em Michigan e Pensilvânia. Provocá-los pode ter consequências muito negativas para os republicanos, pois são estados decisivos. Atacar Porto Rico dessa maneira não parece uma estratégia política inteligente”, comenta Potofsky.

O incidente logo foi denunciado nas redes sociais, com a equipe de campanha de Kamala Harris se manifestando. “Quando você tem um idiota que chama Porto Rico de ‘lixo flutuante’, saiba que é assim que ele vê vocês. É assim que ele vê todos que ganham menos dinheiro que ele… Quero que todos os portorriquenhos da Filadélfia, de Reading e de todo o país vejam este vídeo”, reagiu Alexandria Ocasio-Cortez, deputada democrata de Nova York. Coincidentemente, Kamala Harris estava na Filadélfia no mesmo dia, onde a comunidade portorriquenha é significativa. “Os portorriquenhos merecem um presidente que valorize sua força e invista em seu futuro”, declarou a candidata em um vídeo online.

A vice-presidente dos Estados Unidos também lembrou que nunca esquecerá “o que Donald Trump não fez quando os portorriquenhos precisavam de um líder atento e competente”, referindo-se à resposta tardia de Trump aos furacões que atingiram a ilha em 2017. Trump foi criticado pela lentidão na ajuda federal e por seus comentários considerados condescendentes. Após declarar estado de emergência, ele tweetou que “Texas e Flórida estão indo muito bem, mas Porto Rico, com sua infraestrutura defeituosa e sua dívida massiva, vai ter grandes problemas…”. Um relatório de 2023 do Ministério da Habitação revelou que a administração Trump atrasou o envio de mais de 20 bilhões de dólares em ajuda a Porto Rico após o furacão Maria, citando obstáculos burocráticos desnecessários.

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Um ano após a catástrofe, uma pesquisa independente estimou que quase 3.000 pessoas morreram devido aos efeitos do furacão Maria, mas Trump contestou esse número repetidamente, afirmando que ele aumentava “como por mágica”.

Para Allan Potofsky, esse incidente pode não prejudicar Trump em sua corrida pela Casa Branca. Surpreendentemente, ele pode até ajudá-lo. “Trump se concentra principalmente em um eleitorado branco pouco educado, e esta eleição depende mais da mobilização de sua base do que da conquista da oposição. As pesquisas parecem estagnadas desde a entrada de Kamala Harris na disputa, o que valida essa estratégia.”

Referendo Sobre o Futuro de Porto Rico

Embora não possam votar nas eleições presidenciais americanas, os 3,2 milhões de habitantes da ilha de Porto Rico comparecerão às urnas no dia 5 de novembro para um referendo inédito. A votação oferecerá três opções para um novo status não colonial: tornar-se o 51º estado dos Estados Unidos, alcançar a independência ou escolher a livre associação, um status intermediário que permite a Porto Rico permanecer associado aos Estados Unidos com um acordo de compartilhamento de soberania.

“Porto Rico tem o direito – e eu diria até o dever moral – de persistir em sua busca por autodeterminação, exigindo uma resposta apropriada do Congresso à vontade de nosso povo”, afirmou o governador Pedro Pierluisi ao anunciar o referendo em 1º de julho. “Devemos votar quantas vezes forem necessárias para acabar com o status colonial.”

O atual status de Porto Rico como um território não incorporado coloca a ilha em uma situação política e econômica precária. Os portorriquenhos não pagam impostos federais e não recebem financiamento federal para programas essenciais como o Medicaid, que cobre despesas médicas para pessoas de baixa renda. Essa ambiguidade em seu status contribuiu para a crise econômica prolongada da ilha, aumentando as demandas por uma resolução mais clara.

No entanto, é pouco provável que o referendo de novembro resulte em uma mudança significativa. Tal mudança exigiria a aprovação do Senado americano, que historicamente tem se mostrado relutante em modificar o status de Porto Rico, temendo a inclusão de um novo estado majoritariamente hispanofalante e tendente a ser democrático, o que poderia afetar o equilíbrio de forças políticas a nível federal.

Em 2018, Donald Trump já havia manifestado sua oposição à ideia de um status de estado para Porto Rico, afirmando que se oporia enquanto os “líderes incompetentes” da ilha – começando pela prefeita de San Juan, Carmen Yulín Cruz – permanecessem no cargo. Kamala Harris, por sua vez, fez uma menção muito geral em seu programa, afirmando que “respeita o direito de Porto Rico à autodeterminação”, ao contrário de seu adversário.

Independentemente do resultado, esse referendo envia um forte sinal à administração americana: os portorriquenhos, cada vez mais, reivindicam o direito à autodeterminação e desejam que seu status seja redefinido para garantir mais direitos e representação. Tanto os que vivem na ilha quanto os que residem no continente terão a oportunidade, no dia 5 de novembro, de fazer ouvir suas vozes.

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