A decisão do presidente sul-africano Cyril Ramaphosa de enviar o exército para várias regiões do país surge em resposta ao aumento da criminalidade, especialmente gangues e mineração ilegal. Mais de 2.200 soldados foram destacados para cinco das nove províncias mais afetadas, numa operação que se estenderá por um ano e tem como objetivo restaurar a ordem em áreas dominadas pela violência. No entanto, especialistas e residentes expressam ceticismo quanto à eficácia de militares em tarefas de policiamento civil, dado que a experiência histórica sugere resultados limitados.
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Anuncie aqui!Em bairros de Johannesburgo como Eldorado Park, conhecidos por altos níveis de violência, a presença dos soldados foi recebida com sentimentos contraditórios. Leola Davies, uma pensionista de 74 anos, descreveu a área como um “inferno para viver”, mantendo-se em casa por medo de ser a próxima vítima. Já Elviena le Roux, mãe de três filhos, questionou se a intervenção militar trará algum benefício, afirmando que isso apenas poderia “agravar a violência”. Por sua vez, Ronald Rabie, também residente local, reconheceu que a patrulha cria uma sensação temporária de segurança, mas ressaltou que a paz desaparece quando os militares se retiram, defendendo uma presença permanente.
Não é a primeira vez que Cyril Ramaphosa recorre às forças armadas para conter crises. Em 2023, mais de 3.000 soldados foram destacados por seis meses para combater a mineração ilegal, e em julho de 2021 o exército ajudou a controlar os distúrbios após a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. Contudo, a lei sul-africana limita o poder de prisão dos militares, que devem entregar suspeitos à polícia imediatamente, e sua formação é essencialmente voltada para combate, não para policiamento comunitário.
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Anuncie aqui!O passado histórico também complica a aceitação da população. Durante o regime do apartheid, o exército era frequentemente usado para manter a ordem repressiva, criando uma memória de desconfiança que persiste até hoje. O criminologista Guy Lamb alerta que os militares podem intensificar conflitos, respondendo de forma agressiva em situações tensas. Ele cita o período da pandemia da Covid-19, quando o exército foi criticado por uso excessivo de força e detenções ilegais durante a fiscalização do toque de recolher.
Apesar do otimismo das autoridades quanto à capacidade do exército em reduzir a criminalidade, a ausência de estratégias estruturais para atacar as causas profundas da violência indica que o efeito da intervenção será provavelmente temporário. Sem planos dedicados a abordar fatores socioeconômicos, gangues locais, desemprego e pobreza, a tendência é que a criminalidade reapareça assim que os soldados se retirarem, repetindo um ciclo que tem sido constante nas últimas décadas.
No contexto moçambicano, a situação sul-africana oferece um alerta sobre os limites das soluções militarizadas para problemas complexos de segurança. Embora a presença de tropas possa oferecer alívio imediato, sem políticas públicas integradas, apoio social e policiamento de proximidade, os efeitos são efêmeros e a confiança das comunidades dificilmente é conquistada. O caso sul-africano evidencia a necessidade de combinar intervenção direta com estratégias de longo prazo para que a segurança seja sustentável e a criminalidade possa ser controlada de forma eficaz.




