Skip to main content

MozLife

Governo reafirma aposta na capacitação e protecção dos empreiteiros nacionais

Medidas previstas incluem acesso a financiamento, reformas institucionais e mecanismos de protecção para empresas locais.

O Governo moçambicano voltou a colocar no centro das suas prioridades o fortalecimento dos empreiteiros nacionais, apontando para um conjunto de medidas que visam tornar as empresas locais mais competitivas e protegidas frente a concorrência externa. Entre as linhas de acção anunciadas estão a criação de mecanismos de financiamento adaptados às necessidades das pequenas e médias empresas, reformas para simplificar o ambiente institucional e propostas de políticas de protecção no acesso a contratos públicos. A iniciativa surge num contexto em que a execução de obras públicas e privadas tem dependido, em larga medida, de empresas estrangeiras ou de grandes grupos, o que tem limitado a maturação do tecido empresarial nacional.

A importância desta orientação política é dupla: por um lado, pretende-se reduzir a fuga de receitas e aumentar o valor acrescentado interno nas cadeias de construção; por outro, busca-se gerar emprego qualificado e promover a sustentabilidade das empresas locais face a choques económicos. O Governo sustenta que, sem um ecossistema financeiro e regulatório adequado, os esforços de formação e certificação dos empreiteiros locais correm o risco de não se traduzirem em contratos reais e em crescimento empresarial duradouro. Estas declarações foram feitas no âmbito de comunicações oficiais sobre políticas de desenvolvimento económico, onde se enfatizou a necessidade de articulação entre Estado, sector financeiro e sector privado.

PUBLICIDADE

Anuncie aqui!

A componente financeira é tratada como central na estratégia anunciada: pretende-se incentivar bancos e instituições de microfinanças a desenhar produtos específicos para obras e capital de giro das empreiteiras, além de estudar mecanismos de garantias que reduzam o risco percebido pelos credores. Para muitas empresas nacionais, o acesso a crédito a condições viáveis continua a ser o principal entrave à execução de projectos maiores ou à participação competitiva em concursos públicos. A proposta de linhas de crédito dedicadas e de fundos de garantia busca superar a lacuna entre capacidade técnica e solvência financeira.

Paralelamente às soluções de financiamento, o Governo sinalizou a necessidade de promover reformas institucionais que simplifiquem processos de licenciamento, reforcem padrões de certificação e garantam maior previsibilidade nos procedimentos de contratação pública. A intenção é reduzir a burocracia que penaliza sobretudo as PME, ao mesmo tempo em que se estabelecem critérios claros para a pré-qualificação de empresas em função da sua capacidade técnica e financeira. A adopção de práticas mais transparentes nos concursos públicos é apontada como essencial para assegurar que as empresas locais não são automaticamente preteridas por fornecedores externos.

Mozambique plans a new single entity to coordinate operations at the Port  of Beira

Além das reformas administrativas, o plano inclui medidas de apoio à capacitação técnica e à gestão empresarial. Programas de formação profissional, centros de certificação técnica e iniciativas de business development são referidos como complementos indispensáveis para que as empresas nacionais possam melhorar sua produtividade e cumprir os requisitos contratuais mais exigentes. A experiência mostra que investimentos em formação, quando alinhados com oportunidades reais de contratação, aumentam a taxa de sucesso das empresas locais em tenderes e reduzem a dependência de subcontratações externas.

Outra vertente da política é a protecção dos mercados locais através de critérios de preferência ou condicionantes em determinados contratos públicos, com vista a favorecer empresas nacionais em sectores estratégicos. Esta abordagem, que precisa de ser calibrada para respeitar compromissos internacionais e evitar distorções, pretende assegurar que o Estado maximize o benefício económico interno das obras públicas. Observadores têm advertido, contudo, para o risco de medidas proteccionistas mal desenhadas que possam elevar custos ou provocar litígios, pelo que a implementação deve ser acompanhada por avaliações de impacto e mecanismos de supervisão.

PUBLICIDADE

Anuncie aqui!
HTML / JS Code

A articulação entre governo e sector financeiro é crucial para operacionalizar as garantias e linhas de crédito anunciadas. Instituições bancárias e operadores de microfinanças necessitam de incentivos e instrumentos que permitam avaliar com precisão o risco dos contratos de construção, sobretudo quando se trata de empreiteiros em fase de crescimento. Modelos de partilha de risco, garantias parciais e consórcios para execução de obras são algumas das soluções que têm sido discutidas internacionalmente e que podem servir de referência para adaptações locais dentro do quadro moçambicano.

A capacidade de execução do próprio Estado também foi referida como um factor determinante: atrasos nos pagamentos a empreiteiros, variações contratuais e falta de planeamento são apontados como elementos que corroem a liquidez das empresas e afectam a confiança dos credores. Melhorar a previsibilidade nos ciclos de contratação e pagamento do sector público é, portanto, tão importante quanto oferecer crédito. Para além disso, mecanismos de monitoria e auditoria independentes serão necessários para garantir que recursos destinados ao apoio aos empreiteiros sejam utilizados de forma eficiente e sem desvios.

Close up hands agreement Images - Free Download on Magnific (formerly  Freepik)

No plano regional, o reforço das capacidades dos empreiteiros nacionais pode abrir portas para maior participação em mercados vizinhos, especialmente em projectos transfronteiriços de infra-estruturas. Entretanto, para que essa transição ocorra, as empresas moçambicanas terão de cumprir normas internacionais de qualidade, gestão de risco e sustentabilidade, e as medidas governamentais precisam de potenciar essa harmonização técnica. A integração regional pode, assim, ser um catalisador de crescimento, desde que acompanhada por estratégias comerciais e certificação adequada das empresas nacionais.

Um capítulo separado merecem as PME e microempreendedores do sector, que formam a base do tecido empresarial local mas, por vezes, não dispõem de recursos para responder a exigências administrativas e financeiras. Programas segmentados, assistência técnica e incubadoras setoriais são instrumentos que podem reduzir a assimetria entre pequenas firmas e grandes empreiteiros. A inclusão de subcontratação dirigida e cláusulas contratuais que obriguem a participação local em projectos maiores são opções que têm sido exploradas por outras administrações como maneira de promover o desenvolvimento de capacidades domésticas.

PUBLICIDADE

Anuncie aqui!

Do ponto de vista político e social, reforçar os empreiteiros nacionais implica também promover boas práticas de governação corporativa e combate à corrupção, uma vez que a confiança é um activo essencial para atrair investimento e crédito. Transparência nas adjudicações, contratação baseada em mérito e prestação de contas pública ajudam a criar um ambiente onde empresas honestas prosperam e competem de forma justa. Observadores e actores privados sublinham que estas dimensões são tão importantes quanto as medidas económicas anunciadas.

A implementação das medidas anunciadas exigirá prazos claros, metas quantificáveis e mecanismos de acompanhamento que incluam representantes do sector privado. Sem indicadores de desempenho e avaliações periódicas, existe o risco de que intenções positivas não se traduzam em resultados concretos. A monitoria independente e a participação de associações empresariais poderão contribuir para ajustar políticas em tempo real e aumentar a eficácia das intervenções públicas no sector das obras e construção.

Project management workshop Photos - Download Free High-Quality Pictures |  Magnific (formerly Freepik)

Finalmente, é importante reconhecer os potenciais obstáculos: fragilidade na execução orçamental, capacitação institucional limitada e a necessidade de conciliar medidas de protecção com compromissos comerciais internacionais. Ainda assim, se as iniciativas forem desenhadas com transparência, articulação multi-institucional e foco em resultados, há espaço para que os empreiteiros nacionais ganhem escala, criem empregos e aumentem o conteúdo local nas obras que moldam o crescimento do país. O sucesso dependerá tanto da qualidade das políticas como da capacidade colectiva de as implementar e fiscalizar.

A aposta do Governo em criar um ambiente mais favorável aos empreiteiros nacionais é, em essência, uma aposta no desenvolvimento económico com aprofundamento do valor acrescentado interno. Para que esta visão se concretize será necessário conjugar medidas financeiras, reformas administrativas, formação técnica e mecanismos de transparência. O desafio é ambicioso, mas, se bem gerido, pode transformar o sector da construção num motor de crescimento sustentável e inclusivo para Moçambique.

PUBLICIDADE

Anuncie aqui!